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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Multiplicação dos pães: milagre ou partilha?

Créditos imagem: http://ocatequista.com.br/?p=6358
Questão de um aluno do curso de Iniciação Teológica (www.cursoscatolicos.com.br):
"O milagre da multiplicação dos pães é muitas vezes citado por alguns Padres em suas homilias, como um ato simbólico, onde Jesus apenas orienta  o povo a partilharem e  se organizarem como comunidade. È correto interpretar os milagres de Cristo como simbolismo, ou esta prática é permitida somente em parábolas? "

Nossa resposta:

Os relatos dos milagres têm a função de confirmar a divindade de Cristo e sua missão, tanto que S. João chama de "sinais". Esvaziá-los de sentido real é acusar Jesus de charlatanismo, porque são os milagres que impressionaram o povo e as autoridades da época.

... vê-lo a Ele é ver o Pai (cfr. Jo. 14,9), com toda a sua presença e manifestação da sua pessoa, com palavras e obras, sinais e milagres, e sobretudo com a sua morte e gloriosa ressurreição... (DV 4)

Sem dúvida também têm um sentido metafórico, mas este foi querido e muitas vezes explicado nos próprios Evangelhos.
No caso específico da multiplicação dos pães, antecede e prefigura a Eucaristia, como explica o Catecismo (1335):
  Os milagres da multiplicação dos pães, quando o Senhor disse a bênção, partiu e distribuiu os pães pelos seus discípulos para alimentar a multidão, prefiguram a superabundância deste pão único da sua Eucaristia (167). O sinal da água transformada em vinho em Caná (168) já anuncia a «Hora» da glorificação de Jesus. E manifesta o cumprimento do banquete das núpcias no Reino do Pai, onde os fiéis beberão do vinho novo (169) tornado sangue de Cristo.
 O sentido literal do texto sagrado é o primeiro e mais importante. Entenda-se, porém:


É não apenas legítimo mas indispensável procurar definir o sentido preciso dos textos tais como foram produzidos por seus autores, sentido chamado de « literal ». Já são Tomás de Aquino afirmava sua importância fundamental ( S. Th., I, q.l, a. 10, ad. 1).
Não é o caso, nos Evangelhos, que se constituem de narrativas, tentar encontrar sentidos escondidos. Dizer que a multiplicação dos pães foi feita a partir do que cada um levava é dizer sem base nenhuma. Não há contexto para isso. Os textos dizem que os discípulos distribuiam (eles é que distribuiam), todos comiam "tanto quanto queriam", se saciaram, colheram doze cestos "com os pedaços dos cinco pães".
Esses detalhes são colocados no texto para fundamentar o milagre, não a partilha.

No texto de S. João, é mais interessante ainda que a multiplicação conta entre os sete sinais (milagres) e que é ele, o 4º sinal, que abre o capítulo 6, o discurso sobre a Eucaristia. Logo em seguida, é narrado o caminhar sobre as águas (5º sinal).
Temos então:
  • um sinal de poder sobre a matéria do pão
  • um sinal de poder sobre a matéria do próprio corpo
  • um discurso sobre o pão do céu, carregado de "Eu sou" (o nome de Deus)
O 6º sinal é a cura do cego de nascença: seus olhos foram abertos para que reconhecesse e confessasse o Filho de Deus, Luz do mundo. É cegueira espiritual não reconhecer o Cristo e seu poder.
O 7º sinal é a ressurreição de Lázaro.

Portanto, Aquele que tem poder sobre a matéria (pão), sobre seu próprio corpo, a ponto de ressuscitar dos mortos, pode transformar pão em seu Corpo ressuscitado.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Linha do tempo - História de Israel


Roboão (filho de Salomão) rei em Judá. Templo saqueado por Sesac do Egito. Paga tributo. Rejeitado em Siquém, por não aliviar a servidão do povo. Escolhem Jeroboão à
Abiam
Asa. Contra idolatria. Aliado a BenAdad I de Damasco contra Baasa de Israel










Josafá. Aliado de Acab de Israel contra Assíria






Jorão. Casa-se com Atalia de Acab
Ocozias. Morto por Jeú, junto a Jorão de Israel
Atalia. Mata filhos de Ocozias (seus netos), exceto Joás (salvo pela tia Josaba, mulher de Joiada). Culto a Baal.
Joás. Atalia é morta por Joiada, sacerdote tutor de Joás




Amasias. Morto por Joás de Israel



Azarias (Ozias)




Joatão co-regente

Joatão regente






Profetas Isaías e Miquéias
Acaz. Práticas pagãs
Guerra siro-efraimita à Acaz envia como presente a Teglat-Falasar III o tesouro do templo. Judá vassalo da Assíria







Ezequias purificou o templo (a serpente de bronze). Reforma religiosa, culto e clero. Reforma política.








Busca apoio da Babilônia contra a Assíria
931




913
911


910 – 884

Ascensão assíria
885

880
873

870

853


852


848
841




835

814
798


796
782


767
753



750
742
740







736
734






732


726


Sargão II ocupado com rebeliões na Babilônia e Ásia Menor
724
722

721
Merodac-Baladã rei da Babilônia, se emancipa da Assíria
Jeroboão rei de Israel (ou Efraim ou Samaria)
Santuários em Dã e Betel (reativados)






Nadab, Baasa (assassino de Nadab, guerra contra Judá), Ela, Zambri (assassino de Ela). Zambri suicidou-se em sete dias ao ver Omri.
Omri fez aliança com Fenícia casando Acab com Jezabel de Tiro.
Funda Samaria, nova capital de Israel
Acab. Construções, culto a Baal. Profeta Elias.


Coalisão (Judá) contra Assíria (Salmanasar III)
Ocozias, sem herdeiros
Jorão, irmão de Ocozias. Eliseu profeta. Vencido por Moab. Junto a Ocozias de
Judá foram mortos por

Jeú. Revolta javista (Eliseu). Perde territórios para Hazael de Damasco e paga tributo a Salmanasar III




Joacaz filho de Jeú
Joás retoma cidades perdidas para Damasco e vence Amasias de Judá (saque de Jerusalém)

Jeroboão II. Amós e Oséias. Restabelece limites de Israel. Assíria diminui influência.

Zacarias (6 meses) assassinado por
Selum (1 mês) assassinado por
Manaém, que paga tributo a Teglat-Falasar III da Assíria na Babilônia.

Facéias filho de Manaém, morto por
Facéia








Acaz de Judá não se alia a Facéia, que, junto a Rason de Damasco cercam Jerusalém (guerra siro-efraimita). Teglat-Falasar III intervém, toma parte da Galiléia, recebe tributo de Acaz de Judá. Edomitas e filisteus aproveitam e emancipam de Judá.
Oséias vassalo assírio. Teglat-Falasar III toma Damasco e mata Rason e deporta população
Salmanasar V na Assíria, Oséias lhe nega tributo, tenta aliança com o fraco Egito






Cerco da Samaria (3 anos)
Sargon II toma a Samaria; deportação; instalação de estrangeiros. Sincretismo.



Senaquerib sitia Jerusalém e recebe tributo de Ezequias (tesouro do templo).

Manassés. Tributo à Assíria. Sincretismo




Amon. Tributo à Assíria. Sincretismo. Assassinado
Josias. Profetas Jeremias, Sofonias e Naum




Recuperado o Dt no templo. Paganismo banido.
Josias tenta impedir passagem de Necao e é morto em Meguido
Joacaz. Após 3 meses, deposto por Necao
Joaquim, irmão de Joacaz. Tributo ao Egito. Profeta Habacuc






Joaquim se rebela. Investida babilônica.
Joaquin/Jeconias. Depois de 3 meses se rende. São deportados o rei, a corte, os dignatários (entre eles Ezequiel) e os tesouros para a Babilônia (1ª deport.)
Nabucodonosor deixa no governo de Judá Sedecias (Matatias), tio de Joaquin.
Rebelião contra a Babilônia (contrariando Jeremias). Cerco de Jerusalém.
Queda de Jerusalém. Captura de Sedecias. Destruição da cidade (2ª deport., ficam os camponeses). Godolias governador, sede Masfa.
Godolias assassinado por nacionalista. Amigos de Godolias fogem para Egito levando Jeremias. Profetas Ezequiel, Abdias e 2º Isaías
3ª deportação





Edito de Ciro permite a volta dos judeus à Jerusalém e a reconstrução do altar.
Fundação do 2º templo



Reconstrução do templo sob governor Zorobabel e sacerdote Josias. Profetas Ageu, Zacarias e Abdias



Esdras em Jerusalém, isolou povos vizinhos
Neemias restaura muralhas e promove reformas. Profetas Malaquias, Joel, Jonas, livro de Tobias.










Ptolomeu instala judeus no Egito e Seleuco na Antioquia
Tradução dos LXX em Alexandria



Selêucidas conquistam Palestina (Antíoco III). Problemas entre judeus e dirigentes selêucidas. Conflitos dos sumos sacerdotes. Tesouro do templo começa a ser usado para saldar dívida dos gregos para com romanos.
Decreto de Antíoco IV proíbe culto judaico. Dedica o templo a Zeus Olímpico. Revolta de Matatias macabeu.
Judas Macabeu (martelo)
Templo retomado (festa da dedicação, hannukah, das luzes, da menorah). Livro de Daniel
Jônatas irmão de Judas
Jônatas sumo sacerdote. Expansão do território judaico.
Simão irmão de Judas. Sumo sacerdote (invenção dos hasmoneus). Hassidins (piedosos) = dividem-se em essênios contras os fariseus
Independência judaica
João Hircano filho de Simão. Antíoco VII sitia Jerusalém. Expansão do território judeu.
Saduceus (aristocracia sacerdotal) apóiam João Hircano.
Alexandre Janeu, irmão de João Hircano, casa-se com Alexandra Salomé esposa de Aristóbulo filho de João Hircano. Expansão de fronteiras.
Alexandra Salomé. Trégua. Seu filho João Hircano II sumo sacerdote.
Assume Hircano II, mas é despossado pelo irmão caçula:
Aristóbulo II, rei e sumo sacerdote, favorecido por Roma e por saduceus.
Hircano II cerca Jerusalém tentando retomar o poder. Se retira com a chegada de Pompeu (general romano) na região.



Pompeu conquista Jerusalém. Hircano sumo sacerdote.
704
Senaquerib na Assíria
701
Senaquerib devasta Babilônia
698
681
Asaradon expande a Assíria e reconstrói Babilônia; conquista Egito
642
640
625
Declínio assírio (queda da capital Nínive) por Nabopolassar da Babilônia

622
609
Necao II do Egito vem em ajuda à Assíria e é rechaçado por Nabopolassar
605
Nabucodonosor II vence Necao e controla império assírio. Em
600
é derrotado no Egito.
598


597

589
587

586


582
555
Ciro rei dos persas começa suas campanhas
539
Ciro conquista Babilônia
538

537
525
Cambises filho de Ciro conquista o Egito
515

490
Dario I vencido em Maratona pelos gregos
458
445
333
Império de Alexandre Magno
323
Alexandre morre na Babilônia e o império grego é dividido entre 4 diádocos: Ptolomeus (Lágidas) no Egito e Palestina, Selêucidas na Pérsia, Mesopotâmia
310
250
200
Início da ascensão de Roma. Antíoco III endividado
198


167

166
164

160
152
143

142
134
decadência dos selêucidas
128
103


76
67


65

64
Pompeu depõe o último selêucida Filipe II
63

























quarta-feira, 27 de julho de 2011

Uma multidão com fome

Reflexão para o 18º Domingo do Tempo Comum - Ano A


Mt 14,19: “Ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida, partiu os pães e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões.” (Veja também: 1ª leitura: Is 55,1-3; Salmo 145; leitura: Rm 8,35.37-39; Evangelho: Mt 14,13-21).

Uma multidão com fome

A insistência dos evangelistas nos relatos de multiplicação de pães operado por Jesus não pode deixar dúvidas de que se trata de verdadeiro milagre ou sinal, no dizer de São João. O número ínfimo de pães, a enorme multidão que come até se fartar, o exagero das sobras não admite outra explicação senão o grande poder de Deus, que sacia além das expectativas e para sempre (1ª leitura e Salmo).
O relato deste banquete da multidão em Mateus inicia-se contrapondo ao banquete de morte preparado por Herodes, em que foi morto João Batista. Enquanto os discípulos querem despedir o povo para que comprem sua própria comida, Jesus ensina a ter compaixão de todos aqueles que buscam n'Ele um alimento espiritual. Noutros episódios, vemos que Jesus se afasta dos que buscam mera cura física ou bem estar material.
A Tradição da Igreja sempre reconheceu nestes relatos milagrosos (Catecismo, n. 1335) a bonança do Reino do Messias, prometida pelos profetas, em que Deus há de saciar para sempre toda fome do homem. Isto há de se concretizar na eternidade, porque a fome é de vida verdadeira, mas temos já sua prefiguração no banquete eucarístico em que acolhemos o próprio Deus-homem ressuscitado.
O convite é para que todos se saciem; cabe a nós não despedir a multidão e zelar para que a Comida não seja desperdiçada.

Márcio Carvalho da Silva

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Só o Senhor é a luz

Reflexão para o 3º Domingo do Tempo Comum, ano A.

Mt 4,20: “Na mesma hora abandonaram suas redes e o seguiram..” (Veja também: 1ª leitura: Is 8,23b-9,3; Salmo 27; leitura: 1Cor 1,10-13.17; Evangelho: Mt 4,12-23).

Só o Senhor é a luz
"E para os que viviam na região escura da morte brilhou uma luz” (Mt 4,13), de tal intensidade que faz com que um homem deixe em segundo plano seu trabalho, seus bens e sua família. Assim aconteceu com os primeiros discípulos, segundo o Evangelho, chamados enquanto trabalhavam.
O desejo mais profundo do homem, "habitar no santuário do Senhor por toda a vida" (Sl 26), torna-se realidade em Jesus Cristo. Ele chama a Si todos os homens, para que também eles propaguem a Sua luz. Cada um é chamado a testemunhar que a verdadeira vida é Deus, que não passa ou perece como os bens deste mundo. O Reino que Ele anuncia é dos céus, de Deus, não construção de homens; é o próprio Cristo, ao qual nos unimos já pelo batismo e definitivamente na vida futura.
O testemunho cristão exige que a verdadeira Luz seja propagada e nunca ofuscada por qualquer pretensa luz própria. O grande Apóstolo Paulo tinha consciência de que a força de sua missão era a Cruz de Cristo que pregava (cf. 1Cor 1,17), e que sempre é preferível diminuir-se para que Cristo apareça (cf. Jo 3,30).
Márcio Carvalho da Silva

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja

Apresentamos a Exortação Apostólica pós-sinodal Verbum Domini sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja

Todos recordam que que há dois anos, de 5 a 26 de outubro de 2008, los bispos de todo o mundo se reuniram, convocados pelo Santo Padre, para dialogar acerca da Palavra de Deus na vida e missão da Igreja.
Agora, em 11 de novembro de 2010, o Papa publicou a Exortação apostólica Verbum Domini, na qual nos dá a conhecer as conclusões daquela reunião.
É um documento precioso que nenhum católico pode deixar de ler, no que o Papa nos exorta em cada parágrafo a ter cada vez mais familiaridade com a Sagrada Escritura e tomá-la sempre em conta em nossa vida ordinária de homens e cristãos.

A exortação consta de três partes:

PRIMEIRA PARTE

A primeira parte é intitulada Verbum Dei e o Papa fala sobre o papel de Deus, o Pai, como fonte e origem da palavra.

Está dividida em três capítulos:

1."O Deus que fala" Trata da "vontade de Deus para abrir e manter um diálogo com os seres humanos, em que Deus toma a iniciativa e se revela de várias maneiras".

2. "A resposta do homem ao Deus que fala" Trata de como "o homem é chamado a entrar na aliança com seu Deus que ouve e responde às suas perguntas. Um Deus que fala, o homem responde com a fé.".

3. "A hermenêutica das Sagradas Escrituras na Igreja". Trata da interpretação correta da Sagrada Escritura (hermenêutica) que exige a complementariedade dos sentidos literal e espiritual, uma harmonia entre fé e razão.

SEGUNDA PARTE

A segunda parte é intitulada "Verbum in Ecclesia" e consiste em três capítulos:

1. "A Palavra de Deus e a Igreja", fala que "graças à Palavra de Deus e à ação sacramental, Jesus Cristo é contemporâneo aos homens na vida da Igreja. "

2. "A Liturgia, lugar privilegiado da Palavra de Deus" fala do "nexo vital entre as Escrituras e os sacramentos, especialmente da Eucaristia." A importância do lecionário, a leitura e a homilia.

3. "A Palavra de Deus na vida da Igreja", aqui é o lugar onde o Papa fala da "importância da formação bíblica dos cristãos, a Bíblia Sagrada na pastoral, na catequese, nos grandes encontros eclesiais, e em relação com as vocações."

TERCEIRA PARTE

A terceira parte, intitulada "Verbum mundo", fala do dever de todos os cristãos de proclamar a Palavra de Deus no mundo em que vivemos e trabalhamos. Composta por quatro capítulos:

1. "A missão da Igreja: anunciar a Palavra de Deus ao mundo", fala de como a Igreja está orientada para proclamar o Evangelho àqueles que não conhecem a Jesus Cristo, mas também aqueles que foram batizados, mas que precisam de uma nova evangelização .

2. "Palavra de Deus e compromisso com o mundo", o Papa recorda que os cristãos são chamados a servir a Deus nos menores dos irmãos.

3. "A Palavra de Deus e as culturas". O Papa expressou sua esperança de que a Bíblia seja mais conhecida nas escolas e universidades e que os meios de comunicação social usem todas as possibilidades técnicas para sua difusão.

4. "Palavra de Deus e o diálogo inter-religioso" O Papa dá algumas indicações úteis sobre o diálogo entre cristãos e pessoas de outras religiões não-cristãs.

Não faltam no documento indicações e sugestões muito práticas, como por exemplo, que todas as famílias tenham uma Bíblia em casa e que possam ler e rezar com ela.

Autor: Lucrecia Rego de Planas | Fuente: Catholic.net
Tradução: Márcio Carvalho
Documento completo: vatican.va

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Alegrai-vos pois o fim está próximo

Reflexão para o 33 Domingo do Tempo Comum
Primeira leitura - Ml 3,19-20a; Segunda leitura - 2Ts 3,7-12; Salmo - Sl 97;Evangelho - Lc 21,5-19.

Os três últimos domingos que encerram o ano litúrgico vem relatando a última viagem de Jesus a Jerusalém, onde haveria de morrer. O discurso, porém, é sobre os nossos últimos dias.
“Tudo será destruído”, é a advertência de Jesus neste texto de Lucas. Diante da tendência de algumas épocas ou grupos de ver nas guerras, calamidades e perseguições o indício de um fim muito próximo, hoje ouvimos: “É preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim”. Grande perseguição à Igreja foi prenunciada. Em última análise, a perseguição é ao próprio Cristo: “Todos vos odiarão por causa do meu nome.” Àqueles que permanecerem fiéis a esse Nome será certa a vida, não esta que passa, mas a futura.
Se o fim dos tempos anunciado pelo Cristo e ensinado pela Igreja não pode ser previsto, o fim de cada indivíduo é certo e vem em breve. São Paulo adverte que isso não é motivo de para quietismo ou ociosidade, mas todos devem trabalhar e cooperar com a graça divina. A caridade cristã não permite a acomodação e a resignação passiva, nem o extremo oposto do pietismo, que pretende comprar a salvação por meio das muitas obras.
O fim dos tempos, tanto no plano individual quanto no universal, é motivo de esperança e alegria, conforme o salmista: “Exultem na presença do Senhor, pois ele vem, vem julgar a terra inteira. Julgará o universo com justiça e as nações com equidade”. Porque Deus é justo, e sua justiça é a misericórdia.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Alegria pela vida nova

Reflexão para o 4º Domingo da Quaresma



Lc 15,20: “Estava ainda longe, quando seu pai o viu e, movido de compaixão, correu-lhe ao encontro, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou”. (Veja também: 1ª leitura: Js 5,9a.10-12; Salmo 33; leitura: 2Cor 5,17-21; Evangelho: Lc 15,1-3.11-32).

Alegria pela vida nova

Já passamos da metade do itinerário quaresmal e já despontam no horizonte os sinais da Ressurreição. É um Domingo de Alegria em meio a um tempo de penitência. Como pode? A penitência tem por fim a alegria. Porque Deus quer o amor mais que os sacrifícios (Os 6,6), no sentido de que as ações devem ser motivadas por boas intenções.
Os israelitas, após seus quarenta anos de deserto, chegam, enfim, à Terra Prometida (1ª leitura). Lá, cessa o maná, do qual estavam fartos, e comem do pão sem fermento, figura da realidade nova onde os erros do passado já não são levados em conta, (2ª leitura) e figura do novo povo de Deus, a Igreja, em que o alimento é o próprio Cristo, feito alimento eterno.
O Evangelho do Domingo da Alegria é a parábola do pai misericordioso, ou do filho pródigo, ou dos dois filhos, conforme o aspecto que se queira ressaltar. No contexto do tempo litúrgico, um aspecto importante se faz notar: o filho mais jovem sai em busca da felicidade. Ele, com o pai e o irmão eram donos de uma próspera propriedade, mas parece que estava farto do cotidiano da família e do trabalho. Apesar de ter o suficiente (talvez até mais!) para a subsistência, tentou uma vida diferente, esbanjando os bens. Só caiu em si quando percebeu que seus bens se acabaram (como todos os bens se acabam) e que se tinha colocado abaixo dos porcos!
Quando a segurança material e os prazeres imediatos não mais escravizam o homem, este, liberto, descobre a misericórdia do Pai que nem sequer pergunta pelos erros passados, mas se alegra e convida a todos à sua alegria.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O fim está próximo a todo tempo

Reflexão para o 33º Domingo do Tempo Comum

Mc 13,31: “Passarão o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão”.

A proximidade do fim do ano litúrgico, que culmina com a solenidade de Cristo, Rei do Universo, nos traz à memória os ditos de Jesus sobre a consumação da história.
A vida humana é marcada pela instabilidade e incerteza quanto ao futuro. O fim da história de cada um pode se dar a qualquer momento. O próprio Jesus admite que só o Pai conhece o dia e a hora final (Mc 13,32). Diante desta angústia humana, apresenta-se-nos algo definitivo: o sacrifício redentor do Cristo (Hb 10,12). Uma vez para sempre, foi aberta a possibilidade da vida feliz sem fim para além da morte. O único capaz de vencer a morte assumiu a condição de criatura para elevar consigo tudo e todos. Pela ressurreição, Cristo nos deu aquilo que não nos pertencia e não merecíamos, a vida plena em Deus, elevando à perfeição a obra de amor iniciada na criação. Como sinal dessa aliança, Jesus instituiu a Eucaristia como memorial de sua paixão e morte. Por ela, atualizamos e perpetuamos o sacrifício único e definitivo de Jesus, até que ele venha pôr fim à angústia da criação.
Somente Deus é definitivo, eterno, completo. Sempre falta algo nos seres criados. Se não faltasse, não seriam criaturas. Assim, não há nada de definitivo que podemos nos apoiar senão nas palavras de Jesus. “Passarão o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão” (Mc 13,31). Se alguém se apega às coisas que passam, esse pode passar junto com as coisas.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Importa que não haja escândalos

"Mas todo o que fizer cair no pecado a um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que uma pedra de moinho lhe fosse posta ao pescoço e o lançassem ao mar!" (Mc 9,42)

Ao longo destes domingos do Tempo Comum, estamos sendo formados como discípulos de Jesus. Tem grande importância no evangelho do 26° Domingo o “nome de Jesus”: o discípulo é aquela que honra este Nome, cumprindo o mandato missionário de anunciar e fazer discípulos de todas as nações.
A narrativa fala do ciúme dos discípulos diretos de Jesus para com outros grupos, que usavam o nome de Jesus. O verdadeiro discípulo não rejeita absolutamente nada daquilo que há de verdadeiro e santo noutras religiões. Considera com sincero respeito esses modos de agir e de viver, esses preceitos e doutrinas que, embora em muitos pontos estejam em discordância com aquilo que a Igreja de Cristo afirma e ensina, muitas vezes refletem um raio daquela Verdade que ilumina todos os homens, sem negar a verdade profunda, tanto a respeito de Deus como da salvação dos homens, que se manifesta a nós por revelação na pessoa de Cristo (cf. Declaração Dominus Iesus sobre a unicidade e a universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja).
“Dos mais diversos lugares e tradições, todos são chamados, em Cristo, a participar na unidade da família dos filhos de Deus [...]. Jesus abate os muros de divisão e realiza a unificação, de um modo original e supremo, por meio da participação no seu mistério” (JOÃO PAULO II, Carta Enc. Fides et ratio, n. 15).
Importa mesmo é que não haja escândalos, principalmente por parte daqueles que devem ser testemunhas do nome de Jesus, colocados à frente dos “pequeninos que creem” (Mc 9,42). Também os ricos, como trata a segunda leitura, têm que cuidar para que sua riqueza perecível não se torne motivo de escândalo. Porque a esses muito foi dado, muito será pedido.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O pão descido do céu que nos leva ao céu

Jo 6, 50: “Este é o pão que desceu do céu, para que não morra todo aquele que dele comer”.
Reflexão para o 19
º Domingo do Tempo Comum - Ano B

As autoridades dos judeus não reconheciam em Jesus o enviado de Deus porque não esperavam mais de Deus, confiavam somente na própria autoridade de mestres. Davam por concluída a revelação de Deus pela Escritura e esperavam somente um líder que pudesse reabilitar seu pleno poder material.

Deus, porém, é inesgotável. O Pai atrai constantemente a todos e ensina através de seu Espírito. A revelação plena se deu em Jesus Cristo, o Filho, mas temos a necessidade de que o Espírito Santo renove constantemente nossas forças e nosso entendimento, para que possamos experimentar de forma plena a encarnação de Deus – divinização do homem.

Como Elias recebeu pelo pão a força para o caminho até o Horeb (monte da revelação), o cristão tem na Eucaristia o vigor necessário para a peregrinação rumo a Deus. Parece pão perecível como o de Elias ou como o maná, mas é pão da vida eterna. Os sentidos nos dizem que é pão; a fé revelada nos diz que é o Cristo Ressuscitado! Os que comeram do maná morreram sem chegar à meta, a terra prometida. Os que comungam da Eucaristia experimentam a presença da vida eterna já.

A Eucaristia nos é sinal daquilo que é a vida do ressuscitado: não uma prolongação desta vida biológica, mas algo diferente. Nada do que é perecível permanece. Tudo é novo de tal modo que não podemos compreender senão na Eucaristia: sinal (sacramento)-participação do que experimentaremos no último dia.

sábado, 16 de maio de 2009

A palavra escrita e os livros na literatura profética

Alguns dos profetas empregaram a escrita. É possível que alguns outros profetas tenham redigido sua mensagem desde o início por escrito.

As razões para isso podem ser diversas. Gunneweg pensa que a vinculação de um profeta a um santuário faz com que ele tenha o interesse em conservar por escrito obras importantes. Millard afirma que a profecia sendo mensagem para o futuro só poderia ser verificada se fosse guardada por escrito. Hardmeier explica que a mensagem profética, quando rejeitada, gerava uma literatura de oposição, que servia de reflexão.

Zimmerli, o mais convincente, aponta vários motivos para a literatura profética: para que os ouvintes também possam ver e ler; para servir de testemunho e acusação, quando a desgraça acontecer; para sacudir o povo, como ataque ao presente.

1. Os livros proféticos

A Bíblia hebraica reúne três grandes profetas (Isaías, Jeremias e Ezequiel) e os Doze menores. A tradução dos Setenta altera a ordem dos Doze e os coloca antes de Isaías. Também introduz após Jeremias os livros de Baruc, Lamentações e a Carta de Jeremias (capítulo 6 de Baruc, em muitas edições atuais).

Daniel é considerado por algumas edições como profeta, enquanto que para os judeus ele está entre os “outros escritos” (Ketubîm). Na verdade, ele representa a literatura apocalíptica, filha da profecia.

2. A formação dos livros

No caso dos profetas, não é certo que um livro inteiro pertença a uma mesma pessoa. Mesmo Abdias, o menor escrito da Bíblia, apresenta acréscimos posteriores.

2.1. A palavra original do profeta

Pode ocorrer que entre a proclamação da mensagem e a sua redação transcorram vários anos. Por exemplo, em Jeremias capítulo 36, o profeta recebe a ordem de escrever tudo o que ouviu desde a vinte e dois anos antes. E no versículo 32 se lê que, num segundo rolo, se acrescentaram muitas palavras àquelas escritas no primeiro rolo, queimado por Joaquim.

É provável que, com a maioria dos profetas, a fala desse lugar a folhas soltas, posteriormente formando pequenas coleções. Também pode ter ocorrido um processo inverso: primeiro a escrita, depois a pregação.

2.2. A obra dos discípulos e seguidores

Pessoas com relação direta com o profeta ou mesmo bem distantes temporalmente atuaram redigindo textos biográficos, reelaborando ou criando novos oráculos. Temos como exemplo muitos relatos sobre o profeta em terceira pessoa, relatos anacrônicos, mudança de sentido no final do texto e acréscimo de palavras como simples esclarecimentos que orientam o leitor.

2.3. O agrupamento de coleções

Ocorre que nem sempre o critério para o agrupamento das coleções de oráculos foi o cronológico. Os redatores parecem ter preferido o agrupamento por temas e de acordo com os ouvintes e destinatários. Aparece assim o seguinte esquema, que não é absoluto:

- oráculos de condenação contra o próprio povo;

- oráculos de condenação contra países estrangeiros;

- oráculos de salvação para o próprio povo;

- parte narrativa.

2.4. Os acréscimos posteriores

Os livros proféticos, ainda assim, estavam sujeitos a acréscimos, geralmente de blocos inteiros. Pode-se garantir, entretanto, que pelo ano 200a.C. os livros proféticos já estavam em sua forma atual, de acordo com a citação do Eclesiástico e de cópias encontradas em Qumrã.



Resumo de: SICRE DIAZ, José Luiz. Profetismo em Israel. Petrópolis: Vozes, 2002. p. 173-181.

sábado, 11 de abril de 2009

O Messias tinha de sofrer e no terceiro dia ressuscitar

Aquele que ressuscitou é o mesmo que morreu na cruz. As mãos e os pés, a carne e os ossos são de uma pessoa viva. Ele come conosco e se dá a conhecer ao partir o pão. E devia ser assim, segundo “a Lei de Moisés, os profetas e os salmos”. O Messias, o Libertador, não poderia ser alguém que livrasse o povo de seus sofrimentos cotidianos, mas alguém que elevasse essa humanidade limitada a uma condição superior, à participação na vida divina, à ressurreição.

Pela Ressurreição, Jesus deu-nos prova de que a humanidade é elevada à medida que busca transformar seus inevitáveis sofrimentos em caminho para o Pai. Não considerando a vida no mundo como finalidade em si mesma, mas não se esquecendo que só passando por esta vida chegaremos à vida definitiva em Deus, que se fez homem, viveu, morreu e, por isso, ressuscitou.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Eclesiologia na Carta aos Colossenses

A Igreja é o Corpo de Cristo, e este é Cabeça por ser o primeiro ressuscitado e o princípio de salvação.

Cl 1, 18 E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência. 24 Regozijo-me agora no que padeço por vós, e na minha carne cumpro o resto das aflições de Cristo, pelo seu corpo, que é a igreja;

A participação no mistério de Cristo se dá pelo batismo

Cl 2, 12 Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos.

A Igreja é universal[1]

Cl 3, 11 Onde não há grego, nem judeu, circuncisão, nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre; mas Cristo é tudo em todos.

A vinculação a esse Corpo é motivo de paz

Cl 3, 15 E a paz de Deus, para a qual também fostes chamados em um corpo, domine em vossos corações; e sede agradecidos.

Os que pregam doutrinas estranhas estão fora da Igreja, da comunhão com a Cabeça

Cl 2, 18 Ninguém vos domine a seu bel-prazer com pretexto de humildade e culto dos anjos, envolvendo-se em coisas que não viu; estando debalde inchado na sua carnal compreensão, 19 E não ligado à cabeça, da qual todo o corpo, provido e organizado pelas juntas e ligaduras, vai crescendo em aumento de Deus.

Nesta Igreja, a verdadeira ascese consiste em evitar os vícios e a praticar as virtudes

evitar Cl 3, 5 Mortificai, pois, os vossos membros, que estão sobre a terra, a prostituição, a impureza, a afeição desordenada, a vil concupiscência, e a avareza, que é idolatria; 8 Mas agora, despojai-vos também de tudo, da ira, da cólera, da malícia, da maledicência, das palavras torpes da vossa boca.

fazer Cl 3, 12 Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de misericórdia, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade;13 Suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também. 14 E, sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição.

O verdadeiro culto consiste em fazer tudo em nome do Senhor Jesus, pela palavra, louvor e obras

Cl 3, 16 A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao SENHOR com graça em vosso coração. 17 E, quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei tudo em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai.

A oração seja universal, por todos e para todos

Cl 4, 3 Orando também juntamente (unânimes) por nós, para que Deus nos abra a porta da palavra, a fim de falarmos do mistério de Cristo, pelo qual estou também preso;

A Igreja se manifesta nas relações domésticas e cotidianas

Cl 3, 23 E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens, 24 Sabendo que recebereis do Senhor o galardão da herança, porque a Cristo, o Senhor, servis.

Cl 4, 15 Saudai aos irmãos que estão em Laodicéia e a Ninfa e à igreja que está em sua casa.



[1] As assembleias locais formam uma grande comunidade de culto. Não só como esperança de uma reunião futura, mas uma realidade já presente.

Enquanto o vocábulo hebraico traduzido por sinagogé significa “assembleia reunida”, o vocábulo traduzido por ekklesía significa “tropa mobilizada”, no sentido de uma reunião supralocal e apolítica, tendo como modelo a assembleia do Sinai, no deserto, antes da constituição da nação. Por isso, a comunidade de culto é também atemporal.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O Reino de Deus está próximo

Pistas de reflexão sobre a liturgia do I Domingo da Quaresma (Gn 9,8-15; Sl 25; 1Pd 3,18-22; Mc 1,12-15)

No relato do dilúvio, Deus promete a Noé e a todos os seus descendentes que “as águas não mais se tornarão um dilúvio para destruir toda carne” (Gn 9,15). Jesus, a nova e eterna Aliança, faz das águas um sinal de salvação e do seu Reino que se aproxima.
De fato, pelo Batismo somos mergulhados no mistério da morte do Filho de Deus, e com Ele ressurgimos para uma vida nova. Alimentados pela Palavra e a Eucaristia, e vencendo as tentações, caminhamos fortalecidos para o Reino definitivo de Deus, meta de toda a nossa existência.
Eis o significado e o compromisso para o qual a Igreja nos chama nesta Quaresma: fazer da nossa vida uma intensa preparação para a Páscoa, nossa ressurreição com Cristo, anunciando com o testemunho e a palavra que o Reino de Deus foi inaugurado e precisa da nossa conversão diária para que ele cresça.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Festa da Conversão de São Paulo

No dia 25 de janeiro se celebra a festa da Conversão de São Paulo. Como o Domingo é o principal dia de festa do cristão, este ano é celebrado o 3º Domingo do Tempo Comum, conforme as Normas Universais para o Ano Litúrgico e o Calendário.

Por ocasião no Ano Paulino (28 de junho de 2008 a 29 de junho de 2009, dois mil anos do nascimento do Apóstolo Paulo), a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos (órgão do Vaticano responsável pela liturgia católica) concedeu por meio de decreto, de maneira extraordinária, que no dia 25 de Janeiro de 2009 se possa celebrar em cada igreja uma Missa segundo o formulário Conversão de São Paulo Apóstolo, como está no Missal Romano.

Mais do que conhecer a figura de Paulo, sua vida e personalidade, o Ano Paulino proposto pelo Papa chama a aprender daquele a quem São Paulo amava a ponto de suportar tudo: o Cristo. Em suas cartas, ele luta veementemente contra quem o queira colocar acima de Cristo: “Então estaria Cristo dividido? É Paulo quem foi crucificado por vós? É em nome de Paulo que fostes batizados?” (1 Cor 1, 13).

E quem é que Paulo aponta? Por ocasião de sua conversão, o então Saulo pergunta: “Quem és, Senhor?”, e recebe como resposta: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues” (Atos 9, 4s). Ora, Jesus já havia morrido, ressuscitado e subido ao céu. Saulo não perseguia a Jesus de Nazaré, mas a Igreja, os cristãos. Jesus ressuscitado se identifica com a Igreja.

Esse acontecimento que mudou a vida de Saulo, um encontro pessoal com o Ressuscitado, está no fundo da doutrina sobre a Igreja como Corpo de Cristo. A Igreja não é mera associação de pessoas ou uma “luta por uma causa”, mas uma Pessoa. Paulo, a semelhança de Jesus que esteve três dias morto para ressuscitar, esteve três dias sem poder ver, estar em pé, comer; depois no momento do batismo, de sua aceitação da Igreja, seus olhos voltaram a abrir-se, pôde comer e retomou as forças, voltou à vida (cf. Atos 9, 18). Depois do seu batismo, relativizou tudo quanto havia vivido sem ser para Cristo. “Mas tudo isso, que para mim eram vantagens, considerei perda por Cristo. Na verdade, julgo como perda todas as coisas, em comparação com esse bem supremo: o conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor. Por ele tudo desprezei e tenho em conta de esterco, a fim de ganhar Cristo” (Filipenses 3, 7-8). E não era de uma vida devassa que Paulo falava, mas de uma vida irrepreensível: “Se há quem julgue ter motivos humanos para se gloriar, maiores os possuo eu: circuncidado ao oitavo dia, da raça de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu e filho de hebreus. Quanto à lei, fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da Igreja; quanto à justiça legal, declaradamente irrepreensível” (Filipenses 3, 4-6).

Paulo havia acreditado que a prática escrupulosa da lei o faria justo diante de Deus. Seu encontro com Jesus Ressuscitado o fez perceber que a salvação vem de Deus. Cabe ao homem “converter-se”, isto é, crer e acolher, na fé, a oferta de Deus e viver, a seguir, suas exigências, fortalecidos no Corpo de Cristo, que nos assimila a Si em cada Eucaristia.

sábado, 9 de agosto de 2008

Bíblia, Palavra de Deus e Igreja

A Bíblia é a Palavra de Deus! – canta-se em nossas igrejas. Mas deveríamos entender: a bíblia (mas não só ela) manifesta a Palavra de Deus.
O homem pode, somente com sua razão natural, chegar a reconhecer Deus. De fato, muitos filósofos admitiram a necessidade e existência de um ser absoluto, eterno, causa e fim de tudo que existe. Mas uma compreensão mais fácil e sem erro desse Ser se dá somente com sua auto-revelação. Depois de ter falado muitas vezes e de muitos modos pelos profetas, falou-nos Deus nestes nossos dias, que são os últimos, através de Seu Filho (Heb. 1, 1-2). A Palavra eterna de Deus se encarna e nos dá a conhecer a plenitude do mistério divino.
O Verbo eterno entrou no tempo (Jesus) e comunicou a vida íntima de Deus aos homens daquele tempo, deixando o mandato do ensino: àqueles que escolheu prometeu assistência infalível do seu próprio Espírito, para que todos os povos participassem dessa revelação. Esse grupo, inicialmente os doze apóstolos liderados por Pedro, depois seus sucessores, se tornam o critério da verdade.
Posterior no tempo, mas tão importante quanto essa Sagrada Tradição Apostólica, é a Sagrada Escritura. Deve-se ter em mente que o que está escrito é o que era pregado. A palavra é anterior à escrita. O Antigo Testamento foi escrito durante aproximadamente mil anos, terminado por volta de dois séculos antes de Cristo. O Novo Testamento começou a ser escrito por volta do ano 50 depois de Cristo (duas décadas depois de sua pregação!) e só terminou por volta do ano 100. Muitos outros escritos haviam por esse tempo que não entraram no conjunto do que conhecemos hoje como Bíblia.
Para a escolha dos livros do Antigo Testamento, que é patrimônio também dos judeus, houve duas tradições. Os judeus de Alexandria, colônia grega no Egito, por volta do ano 200 a.C. escolheram 46 livros, dentre os quais 39 escritos originalmente em hebraico, que foram traduzidos para o grego. Essa versão é conhecida como Septuaginta ou “tradução dos Setenta” ou simplesmente “LXX”, referência aos setenta sábios que teriam feito a tradução para o grego. A segunda tradição é de apenas 39 livros. Judeus nacionalistas reunidos em Jamnia por volta do ano 100 d.C. rejeitaram os livros escritos em grego (1 e 2 Macabeus, Judite, Tobias, Eclesiástico, Sabedoria, Baruc e trechos de Daniel e Ester).
Já os Apóstolos utilizavam a versão grega em suas pregações. Aliás, todo o Novo Testamento foi escrito em grego. Desse modo compreende-se que a Igreja Católica tenha assimilado os 46 livros do Antigo Testamento.
Também houve controvérsias na escolha dos livros do Novo Testamento. Os livros de Tiago, Hebreus, Apocalipse, 2 Pedro, 2 e 3 João e Judas foram questionados por muito tempo. Aos poucos as próprias comunidades iam rejeitando alguns escritos, que hoje conhecemos como apócrifos. A definição do elenco dos atuais livros da nossa bíblia veio primeiramente por meio de Concílios Regionais como o de Roma (382 d.C), Hipona I (393 d.C), Cartago III (397 d.C). Uma definição universal veio no Concílio Ecumênico de Florença em 1442, reiterado em 1545 no Concílio de Trento, contra a Reforma Protestante que adotou somente 39 livros do Antigo Testamento.
Assim, a Bíblia como a conhecemos é fruto da Igreja Católica, da Tradição Apostólica. Ambas – Sagrada Escrita e Sagrada Tradição – estão a serviço da Palavra de Deus. A Bíblia, sem a devida e autêntica interpretação da Tradição que a criou, pode se tornar letra morta.


Cf. CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Dogmática Dei Verbum sobre a Revelação Divina. 1965. Disponível em: http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651118_dei-verbum_po.html

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Evolução da Lei do Amor

"Olho por olho, dente por dente"
A famosa "lei do talião", pode não parecer, é um avanço. O livro do Gêneses aponta Lamec, descendente de Caim, como sendo o "inventor" da vingança. Por uma ferida se mata um homem; por um arranhão, um jovem. Se se vinga Caim sete vezes, Lamec vinga setenta e sete! (Gn 4,23). Essa lei, que se encontra também no Código de Hamurábi e em leis assírias, visa coibir abusos. A punição se limita agora ao grau da ofensa.
Também se observa avanço na forma de tratar a ofensa: não só pelo ato em si, mas pela intenção. O homicídio premeditado cairia na lei do talião, vida por vida. O homicida involuntário, acidental, deveria ser protegido do "vingador de sangue", podendo até se refugiar no santuário.
Como em todo o Pentateuco, essa lei também, a seu modo, quer garantir a vida. A lei punitiva não tem função remediativa mas preventiva. O homem que cava um poço e não o tapa é responsável pelo que nele cair (Ex 21,34). Se alguém fizer uma fogueira no seu campo e o fogo se alastrar para o campo de outra pessoa, o causador do incêndio pagará todo o prejuízo (Ex 22,5). Ao longo do tempo as punições extremas vão se amenizando a ponto de serem substituídas por resgates ou pelo perdão.
O fato destas leis estarem inseridas na Lei do Sinai não pode ser interpretado como sendo leis "ditadas" diretamente por Deus. As leis do Sinai são anacrônicas se tomadas literalmente. Tratam de coisas que não existiam no deserto, "três meses depois da saída do Egito" (Ex 19,1), onde o texto é colocado, como campos, templos. A vida em sociedade exige que se conheça a autoridade. Então toda a lei é remetida a um momento primordial, fundante, a um patriarca e ao próprio Deus.
O ápice da evolução das leis bíblicas anti-violência se dá em Jesus, que no sermão da montanha desenvolve toda a Lei e os Profetas. "Ouviram o que foi dito aos antigos: Näo matarás. E ainda: Aquele que matar alguém terá de responder em julgamento. Mas eu digo-vos: Todo aquele que se irritar contra o seu semelhante terá de responder em julgamento; aquele que insultar o seu semelhante, chamando-lhe "imbecil", será julgado pelo tribunal; e aquele que lhe chamar "estúpido" merece ir para o fogo do inferno" (Mt 5,21s). Jesus, em sua Lei do Amor, eleva a crime a mínima ofensa: note-se o jogo de que quanto menor a ofensa, maior a pena.
"Ouviram o que foi dito: Olho por olho e dente por dente. Mas eu digo-vos: Näo resistam a quem vos fizer mal" (Mt 5,38-39). Jesus não ensina aqui a passividade frente ao mal, mas a extinguir o ciclo do mal, provocando no agressor a reflexão sobre a verdade: "Se disse alguma coisa de mal, mostra onde está o mal. Mas se o que eu disse está certo, por que é que me bates?" (Jo 18,23).