Reflexão para o Domingo da Ascensão do Senhor
quinta-feira, 2 de junho de 2011
Batizai e ensinai! Estarei convosco!
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
A vida futura
Havia dois gêmeos, um menino e uma menina, tão inteligentes e precoces que, mesmo no útero materno, já conversavam entre si.
A menina perguntava ao irmão: “Pra você, haverá vida após o nascimento?”.
Ele respondia: “Não seja ridícula. O que faz você pensar que exista algo fora desse espaço estreito e escuro em que nos encontramos?
A menina, criando coragem, insistia: “Talvez haja uma mãe, alguém que nos colocou aqui e que vai cuidar de nós.”
Ele disse: “Você vê alguma mãe em algum lugar? O que você vê é tudo que existe”.
Ela de novo: “Mas você não sente, às vezes, uma pressão no peito que aumenta dia a dia e nos impele para frente?”.
“Pensando bem, ele respondeu, é verdade, sinto isso o tempo todo”.
“Veja, concluiu, triunfante, a irmã mais nova, essa dor não pode ser para nada. Eu acho que está nos preparando para algo maior do que este pequeno espaço”.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
O fim está próximo a todo tempo
Reflexão para o 33º Domingo do Tempo Comum
A vida humana é marcada pela instabilidade e incerteza quanto ao futuro. O fim da história de cada um pode se dar a qualquer momento. O próprio Jesus admite que só o Pai conhece o dia e a hora final (Mc 13,32). Diante desta angústia humana, apresenta-se-nos algo definitivo: o sacrifício redentor do Cristo (Hb 10,12). Uma vez para sempre, foi aberta a possibilidade da vida feliz sem fim para além da morte. O único capaz de vencer a morte assumiu a condição de criatura para elevar consigo tudo e todos. Pela ressurreição, Cristo nos deu aquilo que não nos pertencia e não merecíamos, a vida plena em Deus, elevando à perfeição a obra de amor iniciada na criação. Como sinal dessa aliança, Jesus instituiu a Eucaristia como memorial de sua paixão e morte. Por ela, atualizamos e perpetuamos o sacrifício único e definitivo de Jesus, até que ele venha pôr fim à angústia da criação.
Somente Deus é definitivo, eterno, completo. Sempre falta algo nos seres criados. Se não faltasse, não seriam criaturas. Assim, não há nada de definitivo que podemos nos apoiar senão nas palavras de Jesus. “Passarão o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão” (Mc 13,31). Se alguém se apega às coisas que passam, esse pode passar junto com as coisas.
sábado, 11 de abril de 2009
O Messias tinha de sofrer e no terceiro dia ressuscitar
Aquele que ressuscitou é o mesmo que morreu na cruz. As mãos e os pés, a carne e os ossos são de uma pessoa viva. Ele come conosco e se dá a conhecer ao partir o pão. E devia ser assim, segundo “a Lei de Moisés, os profetas e os salmos”. O Messias, o Libertador, não poderia ser alguém que livrasse o povo de seus sofrimentos cotidianos, mas alguém que elevasse essa humanidade limitada a uma condição superior, à participação na vida divina, à ressurreição.
Pela Ressurreição, Jesus deu-nos prova de que a humanidade é elevada à medida que busca transformar seus inevitáveis sofrimentos em caminho para o Pai. Não considerando a vida no mundo como finalidade em si mesma, mas não se esquecendo que só passando por esta vida chegaremos à vida definitiva em Deus, que se fez homem, viveu, morreu e, por isso, ressuscitou.
sábado, 10 de janeiro de 2009
Uma posição heterodoxa sobre as virtudes teologais e o Reino de Deus
COMBLIN, José. O caminho. Ensaio sobre o seguimento de Jesus. 2ª. Ed. São Paulo: Paulus, 2005. 227pp.
O autor pretende tratar do que é ser cristão. Baseia sua exposição nas três virtudes teologais, as quais dedica cada um dos três capítulos do livro respectivamente à esperança, à fé e ao amor.
Já no prólogo propõe a distinção que norteia todo seu livro: o caminho de Jesus é diferente de religião (p. 8). Esta, tendo em vista claramente e primeiramente a Igreja Católica, é empecilho para seguimento de Jesus.
O primeiro capítulo é sobre a esperança, por ser a virtude que norteia nossa época (p. 13). Após expor longamente sobre como não foi vivida a esperança em outras épocas, chega à conclusão que o atual conceito de progresso traz em si uma esperança (p. 18), não mais escatológica, mas para esse mundo (p. 20-23). Essa esperança aspira a uma nova forma de convivência humana, isto é, o Reino de Deus, uma “mudança total da sociedade” (p. 33).
O autor afirma que “a única tarefa que justifica a existência da igreja” é “refazer toda a educação do povo” (p. 45) colocando-a ao lado das outras organizações. “O lugar dos cristãos é no meio deste mundo, fazendo parte dos movimentos de libertação dos oprimidos”, afirma o autor, elencando e justificando alguns movimentos de revolta como “portadores de esperança” (p. 46).
No subtítulo “Esperança e realidade histórica” critica a Igreja Católica por suas “proposições universais”, “cristianismo invariável”, alegando ser o cristianismo um momento na história (p. 53). Diz que a história de Israel é a história de uma esperança, de uma promessa. Quando começaram a perder a esperança para este mundo, “começou a aparecer a idéia de ressurreição” (p. 56). No mesmo subtítulo cai em contradição ao afirmar que “enquanto estamos a caminho – não podemos esperar uma realização plena do Reino de Deus [...] O Reino de Deus nunca será uma estrutura instalada de modo definitivo na história” (p. 61).
No capítulo sobre a Fé, o autor dedica uma longa introdução a demonstrar que fé foi confundida com ortodoxia. No segundo subtítulo define a fé como “resposta ao anúncio da boa-nova” (p. 93). “A fé cristã situa-se nessa fé em si mesmo, na própria capacidade e na busca da liberdade e da vida” (p. 95). A fé em Jesus é seguir o seu caminho (p. 118) e encontrá-lo no pobre (p. 121), não no culto. “Crer no Espírito Santo é crer nessa força e na capacidade de lutar por um mundo diferente”, é crer em si mesmo (p. 122) em oposição à instituição Santa Sé, da qual, segundo o autor, somos obrigados “a relativizar muito o valor dos textos publicados” (p. 123).
Na introdução sobre o capítulo do Amor, o autor apresenta os aspectos da questão do amor a serem tratados nos dias atuais: o reconhecimento do outro e a compaixão que gera ação.
O amor é a experiência humana concreta do conhecimento de Deus (p. 141) e tem por objeto pessoas humanas (p. 142). O objeto próprio do amor é o pobre (p. 148). As opções para amar os pobres são a inculturação (p. 155) ou a sua inserção no mundo global (p. 156).
domingo, 16 de novembro de 2008
Cristo, Rei e Juiz do Universo, Senhor da História
A Celebração que encerra o ano litúrgico apresenta a consumação do Reino de Deus: o Filho, Bom Pastor, reunirá os homens de todas as nações e de todos os tempos a fim de revelar suas obras. Quem vive pelo irmão, e em obediência e despojamento tal como Jesus, que venceu e foi exaltado justamente por ter obedecido humildemente ao Pai até a morte, esse participará da mesma glória do Filho, à direita do Pai, no Reino definitivo, preparado desde todos os tempos para ser a consumação da História.
Nesse sentido, o Reino não está presente em sua plenitude neste mundo. Isto não nos permite descuidar de sua construção. Ele é preparado neste mundo pelo amor desinteressado principalmente ao menor dos irmãos, imagem do Cristo humilde, que não busca poder terreno, mas espera que o Pai cumpra toda a justiça. De fato, a fé no Juízo Final é esperança para os cristãos que confiam no Rei e Juiz Misericordioso, e sabem que a injustiça do mundo não pode ser a última palavra sobre a História.domingo, 4 de maio de 2008
Ressurreição, Juízo Final e Juízo Particular
É opinião corrente nos meios teológicos que Juízo Final e Juízo Particular se darão em um só "momento", por ocasião da morte de cada um. O argumento usado é que o homem é ser inteiro, não podendo subsistir o corpo sem alma ou a alma sem o corpo, por um instante que seja. Logo a ressurreição do corpo se daria "no mesmo instante que a morte". Também é dito que para depois desta vida não há passagem de tempo; sendo assim seremos julgados todos ao mesmo tempo.
Tal não é o ensinamento da Igreja.
O Pe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap. – pregador da Casa Pontifícia – comenta sobre a Liturgia da Ascensão do Senhor: "Nosso verdadeiro céu é Cristo ressuscitado, com quem iremos encontrar-nos e formar um «corpo» depois de nossa ressurreição, e de modo provisório e imperfeito imediatamente depois da morte". A Congregação para a Doutrina da Fé já havia se pronunciado em Carta referente a algumas questões de Escatologia, aos 17 de maio de 1979, sobre alguns pontos:
- A Igreja entende a ressurreição do homem todo inteiro; esta não é outra coisa que a extensão da ressurreição de Cristo aos homens.
- A Igreja afirma a sobrevivência e subsistência após a morte de um elemento espiritual que prorroga a consciência e assegura que o "eu" humano subsista. Para designar este elemento, a Igreja emprega o termo "alma", consagrado pela Escritura e Tradição. Sem ignorar que o termo tem diversos sentidos na bíblia, não há razão séria para o rejeitar e considera um recurso de linguagem essencial para assegurar a fé dos cristãos.
- A Igreja, conforme a Escritura, espera a manifestação gloriosa de Nosso Senhor Jesus Cristo, considerada, no entanto, como separada e distinta em comparação com a situação que os homens se encontram imediatamente após a sua morte.
Alguns teólogos criticam esta posição da Igreja, tachando-a de dualista por defender a distinção entre corpo e alma. Ora, seria também dualismo não aceitar a subsistência de um elemento sem o outro. O homem é inteiro, formado de corpo e alma, não como elementos antagônicos, mas complementares.
O que se dá na morte, em linhas gerais, é a corrupção do corpo e a permanência da alma (elemento espiritual, portanto não se decompõe). A alma (que é pessoa) é julgada em foro privado por Deus (juízo particular) e aí conhece seu destino (permanecer em Deus ou negá-l'O, afastando-O). Por ocasião da segunda vinda de Jesus (parusia), todos ressuscitarão em seus corpos (glorificados, não-materiais) e será esclarecida perante todos a história e cumprida toda a justiça (juízo final).
Há de se esclarecer ainda sobre a eternidade. Esta é a situação do que não teve começo nem terá fim. Então, só Deus é eterno. Ele abarca toda a história em um mesmo instante.
Para todos os outros seres, as criaturas, há sucessão de fatos. Neste mundo estamos sob o tempo, a sucessão de dias e anos. Para as criaturas espirituais (o que inclui o homem após a morte) há sucessão de fatos, de um modo que não é possível determinar. Caso morra hoje, não poderei ser julgado ao lado de uma pessoa que sequer existe, pois nascerá daqui a dez anos, por exemplo. A não ser que se admita, contra todos os argumentos e contra a Revelação, um estado de dormição, de não-existência esperando a ressurreição.
É, pois, errôneo atribuir a todos os homens um só juízo, o final, ocorrido logo após a morte em um mesmo instante para todos.
Seria melhor ainda não nos preocuparmos com especulações do tipo "como vai o céu" mas nos determos a praticar o "como se vai ao céu", conforme a reflexão do Pe. Cantalamessa: "As palavras do anjo, «homens da Galiléia, por qu e ficais aqui parados, olhando para o céu?», contêm também uma reprovação velada: não devem ficar olhando para o céu e especulando sobre o além, mas viver à espera do retorno [de Jesus], prosseguir sua missão, levar seu Evangelho até os confins da terra, melhorar a própria vida na terra".
E confiemos na Igreja, que nesse mesmo episódio evangélico recebeu de Jesus a promessa de assistência por "todos os dias até o fim do mundo".
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Comentário do Pe. Cantalamessa sobre a liturgia da Ascensão do Senhor. ROMA, 2 de maio de 2008 - http://www.zenit.org/article-18301?l=portuguese
CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Carta referente a algumas questões de Escatologia – Recentiores episcoporum Synodi, 17 de maio de 1979 - http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19790517_escatologia_fr.html
sábado, 23 de fevereiro de 2008
O inferno é um local físico?
Sexta, 8 de fevereiro de 2008, a Redação do Terra Notícias afirma que “O papa Bento XVI afirmou que o inferno é um local físico que existe e não está vazio, ao contrário do que seu antecessor, João Paulo II, dizia.” http://noticias.terra.com.br/mundo/interna/0,,OI2371866-EI312,00.html
O defeito da notícia é dizer o que não foi dito: “o inferno é um local físico”. No Encontro com o Clero de Roma, 07 de fevereiro de 2008, a que a notícia faz referência, Pe. Pietro Riggi, pergunta: “a 25 de Março de 2007 Vossa Santidade pronunciou um discurso improvisado, lamentando-se de como hoje se fala pouco dos Novíssimos. De facto, nos catecismos da CEI [Conferência Episcopal Italiana] usados para o ensino da nossa fé aos jovens de confissão, comunhão e crisma, parece-me que são omitidas algumas verdades de fé. Nunca se fala do inferno, do purgatório, uma só vez do paraíso, uma só vez do pecado, só do pecado original. Faltando estas partes essenciais do credo, não lhe parece que desaba o sistema lógico que leva a ver a redenção de Cristo?”
O Papa responde: “Com razão o senhor falou de temas fundamentais da fé, que infelizmente poucas vezes são mencionados na nossa pregação”. E o que mais se aproxima de uma definição de inferno: “Procurei dizer: talvez não sejam tantos os que se destruíram assim, que são incuráveis para sempre, que já não tem mais elemento algum sobre o qual se possa basear o amor de Deus, não têm mais em si mesmos um mínimo de capacidade de amar. Isto seria o inferno.”
Nada de “local físico” e nada de diferente de João Paulo II.
A 25 de março de 2007 foi dito na homilia durante a celebração eucarística presidida na paróquia romana de Santa Felicidade e Filhos Mártires (http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/homilies/2007/documents/hf_ben-xvi_hom_20070325_visita-parrocchia_po.html): “Jesus veio para nos dizer que nos quer a todos no Paraíso, e que o inferno, do qual se fala pouco nesta nossa época, existe e é eterno para quantos fecham o coração ao seu amor. Portanto, também neste episódio compreendemos que o nosso verdadeiro inimigo é o apego ao pecado, que pode levar-nos ao fracasso da nossa existência”. É a única citação de inferno na homilia.
João Paulo II já tratou mais especificamente do tema em Audiência de 28 de Julho de 1999, “O inferno como rejeição definitiva de Deus” (http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/audiences/1999/documents/hf_jp-ii_aud_28071999_po.html) . Destaco as seguintes afirmações, que resumem a doutrina católica sobre o inferno, grifos meus:
“o homem, chamado a responder-Lhe na liberdade, pode infelizmente optar por rejeitar de maneira definitiva o Seu amor e o Seu perdão[...]É a situação em que definitivamente se coloca quem rejeita a misericórdia do Pai, também no último instante da sua vida.” §1
“Para descrever esta realidade, a Sagrada Escritura serve-se de uma linguagem simbólica” §2
“O inferno está a indicar, mais do que um lugar, a situação em que se vai encontrar quem de maneira livre e definitiva se afasta de Deus, fonte de vida e de alegria. Assim resume os dados da fé sobre este tema o Catecismo da Igreja Católica: «Morrer em pecado mortal sem arrependimento e sem dar acolhimento ao amor misericordioso de Deus é a mesma coisa que morrer separado d'Ele para sempre, por livre escolha própria. E é este estado de auto-exclusão definitiva da comunhão com Deus e com os bem-aventurados que se designa pela palavra "Inferno"» (n. 1033).” §3
É de se lamentar que a imprensa use de meias-verdades ou deturpações com o simples intuito de conseguir audiência.
