"A finalidade da teologia deveria ser a de guiar pelo caminho reto, bom; por conseguinte, no fundo, ela é uma ciência prática" (Bento XVI)
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“Tomados de feroz anticlericalismo, os enciclopedistas franceses, com Voltaire à frente, converteram a Inquisição na sua principal arma de combate contra a Igreja. Tratava-se, diziam, de instrumento de opressão contra as liberdades individuais, manejado por um clero fanático e corrupto, desejoso de manter o povo na ignorância… As mesmas idéias, as mesmas palavras, idênticos chavões continuaram sendo utilizados, como um cantochão, com infatigável insistência pelas correntes liberais do século XIX e chegaram até os nossos dias.” (João B. G. Gonzaga. A
Inquisição em seu mundo. São Paulo, ed. Saraiva, 1993, p. 101).
Vê-se continuamente em nossos dias repetir-se a velha lenda da Inquisição. Tal lenda é bem conhecida. Nela apresenta-se um tribunal tenebroso que tortura suas pobres vítimas. Por trás dele encontrar-se-ia uma Igreja opressora das consciências e inimiga da ciência, representada por monges ignorantes, corruptos e sádicos. Como sempre um tribunal pernicioso, impiedoso etc… Entretanto, a Inquisição é antes de tudo um fato histórico e deve ser tratado como tal. Sendo assim, para não confundirmos a história com a lenda, indicaremos em linhas gerais o que ficou conhecido como a lenda negra da Inquisição, para logo em seguida tratarmos da história.
Podemos encontrar essa literatura tendenciosa já no século XVI, momento de ascensão do protestantismo, e constatarmos seu crescimento com o iluminismo no século XVIII. Contudo, é no século XIX que nos deparamos com os autores que mais contribuíram para a estruturação e perpetuação da lenda negra: Juan Antonio Llorente e Henry Charles Lea.
[...] O fanatismo do padre Llorente na luta contra a Igreja Católica era tamanho, que já sexagenário, escreveu uma obra intitulada Retrato político de los Papas, no qual, além de enumerar uma porção de calúnias, dava crédito à lenda da papisa Joana. Vê-se, pois, como surgem as lendas…
[...] Outro autor influente foi o protestante norte-americano Henry Charles Lea, que dedicou grande parte de sua vida à publicação de escritos contra a Igreja Católica[2]. [...] É interessante notar que um escritor protestante, Häbler, é quem nos dá uma clara visão do método de Lea: “La agrupación de la materia va toda encaminada a echar en cara a la Inquisición un registro de crímines lo más voluminoso posible. Puesto que no podían mantenerse en la forma en que se ha hecho hasta el presente todos los reproches de crueldad, ansia de persecución y opresión de la inteligencia han sido reforzados por medio de una inmensa mole de las particularidades más triviales, etc. Todo con el objeto de que la imagine de la Inquisición resultará lo más repugnante posible.” (F. Ayllón. op. cit. p. 25).
Historicamente, a Inquisição não pode ser considerada como a criação de um Papa, ou de uma mente maquiavélica de pretensões despóticas. A história é muito mais complexa do que a lenda pode imaginar. A Inquisição foi, antes de tudo, fruto da reação de uma sociedade contra movimentos degeneradores da ordem, da moral e da cultura então reinantes.
[...] João Bernardino Gonzaga, ao analisar o contexto social no qual surgiu a Inquisição, afirmou: “No caso da Inquisição, quem a exigiu e impôs, antes da Igreja, foram os governantes e o povo, que viam, nos hereges, rebeldes perigosos e perturbadores. A História mostra que, muitas vezes, os populares se antecipavam às autoridades e se encarregavam de puni-los, levando-os à fogueira.” (João B. G. Gonzaga. A Inquisição em seu mundo. São Paulo, ed. Saraiva, 1993, p. 114).
[...]
Por exemplo, em 1025, um grupo de clérigos de Orléans, defensor de doutrinas heréticas, expõe sua doutrina diante de uma assembléia de bispos, abades e senhores presidida pelo rei Robert. Os hereges aferram-se às suas doutrinas, recusam submeter-se e são excomungados pelo clero. Contudo, o castigo ordenado pelo rei é a pena da fogueira.[9] Os exemplos são diversos. Em 1144, em Liège, alguns hereges aguardam a sentença do Tribunal. Os juízes, esperando a conversão dos hereges acusados, conseguem a custo livrá-los do furor do povo impaciente, que quer queimá-los. [...]
Por volta de 1140, os discípulos de Pierre de Bruys, uma seita iconoclasta, conseguem algum sucesso na região do Midi mediterrâneo. Pedro o Venerável, abade de Cluny, chega a escrever um tratado contra eles, chamando-os de “inimigos da cruz de Cristo”. Esses sucessos, entretanto, não duram por muito tempo, pois o povo, cansando de suas profanações, queima-os nesse mesmo ano.[12] No Saxe, em 1052, o Imperador Henrique III enforca muitos hereges.[13] Em 1120, em Soissons, a multidão impaciente com o Bispo, que demorava em justiçar alguns hereges, arranca-os de suas mãos para levá-los imediatamente à fogueira.
[...]
A atitude da Igreja em todos esses casos foi sempre de tentar converter os hereges. Por mais que os lendólogos neguem-se a ver, foi a conversão dos hereges – e não sua condenação à morte – o verdadeiro objetivo da Igreja. O espírito da Igreja Católica – que a
lenda insiste em apresentar como tirana – está expresso nas palavras de São Bernardo de Claraval, referentes ao massacre de Colônia:
“O povo de Colônia passou da medida. Se aprovamos seu zelo, não aprovamos, de modo algum, o que fez, pois a fé é obra da persuasão e não podemos impô-la.” (N. Falbel. op. cit. p. 57.)
[as citações e referências podem ser encontradas no artigo original]
Carta aos Príncipes da Saxônia sobre o Espírito Revoltoso
A carta é um alerta de Lutero aos príncipes contra as consequências de uma possível revolta iniciada em Allstedt. Considera-se servidor da palavra de Deus e seus opositores, do diabo. Este está em constante luta contra a palavra de Deus desde os primórdios: primeiro através dos judeus e gentios, depois pelos hereges e seitas e, por último, pelo papa, o “derradeiro e mais poderoso anticristo”.
O diabo fez seu ninho em Allstedt; lá que dizem (arrogantemente, segundo Lutero) ouvir o próprio Deus. Lutero, por sua vez, tem o espírito certo [modesto, não?], embora pobre pecador.
Lutero alerta e pede ao príncipe que se antecipe à rebelião e faça uso da “espada confiada”, se necessário. Concede que os deixe pregar livremente para que a palavra de Deus continue em luta.
Posicionamento do Dr. Martinho Lutero sobre o Livrinho Contra os Camponeses Assaltantes e Assassinos
Lutero havia aprovado e mandado a matança dos camponeses, por isso foi alvo de muitos comentários negativos. Em sua defesa, argumenta que o rebelde quer atacar e suprimir a autoridade e é dever dos súditos proteger seu cabeça para preservar a autoridade. Após admoestação e orientação, o rebelde insistente deve ser deixado na inclemência.