Cf. Nota explicativa do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, de 12 de fevereiro de 2004, sobre os limites de responsabilidade canônica do bispo diocesano em relação aos presbíteros incardinados em sua diocese.
Entre o bispo diocesano e seus presbíteros existe uma comunhão no Sacramento da Ordem, pelo qual ambos participam do único sacerdócio de Cristo. Do ponto de vista jurídico, essa relação não pode ser reduzida à relação de subordinação hierárquica nem à relação de emprego.
A subordinação do presbítero ao bispo diocesano se limita ao âmbito do exercício do ministério próprio dos presbíteros. Estes gozam de legítima iniciativa e de uma justa autonomia. A obediência hierárquica assumida pelos presbíteros está vinculada com a diocese, não com a pessoa física do bispo.
O bispo tem o dever do cuidado e da vigilância sobre os presbíteros, somente no âmbitos dos deveres gerais do estado próprio e do ministério dos presbíteros. Cabe ainda ao bispo conferir um ofício ou ministério ao presbítero. O responsável direto por esse ofício, porém, é seu titular, não aquele que o conferiu.
O presbítero responde pessoalmente por seus atos, não podendo o bispo ser considerado responsável pela vida privada dos presbíteros. O bispo poderá eventualmente ser responsabilizado somente nas condições de negligência das normas canônicas e se não tomar as devidas providências quando do conhecimentos de atos irregulares.
sábado, 17 de setembro de 2011
Limite da responsabilidade dos bispos sobre os presbíteros
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Verdadeiro alento aos que se acham desolados com a Igreja
Apesar do estranho título, quero basear minha reflexão no artigo publicado no Correio do Brasil de 15/08/2011, online. Este quer dar a entender que a Igreja Católica está "num inverno rigoroso", isto é, sem verdadeiros fiéis com "políticas" que favorecem uma emigração na Igreja. Conclui que o cristianismo deve ser um "caminho espiritual" apesar da(s) Igreja(s).
O foco do ataque é o atual Papa Bento XVI. E não é para menos.
Há quem queira pensar um cristianismo sem a Igreja ou uma fé desinstitucionalizada. Bento XVI, comprometido com a verdade, vai na direção contrária.
A Igreja não é uma instituição humana burocrática que surgiu para tirar proveito da mensagem de Jesus. Ela é o instrumento deixado pelo próprio Cristo para perpetuar sua mensagem e levar a salvação aos homens de todos os tempos. Se as milhares de seitas cristãs, hoje existentes graças a negação da Igreja ocorrida no século XVI, fazem mau uso do termo Igreja e de toda a mensagem de Cristo, resta negar-lhes o título de Igreja. Isso não é ir contra o ecumenismo, como afirmou o artigo, mas é favorecer a verdade.
Jesus não veio "anunciar um sonho", mas tornar realidade o sonho do Pai: reconciliar o mundo consigo. O instrumento escolhido foi o próprio Filho, que deixa o seio da Trindade eterna para se fazer frágil, humano. Inaugurou assim o Reino de Deus, dos Céus, ao qual se adere aceitando esse presente do Pai e vivendo como Ele viveu. Não podendo obrigar a todos a essa salvação deixou a administração do precioso depósito da fé aos seus amigos especialmente preparados, os Apóstolos (= enviados).
| Queiram ou não, o Papa é ouvido por milhões. |
O articulista objeta também que o movimento de Cristo é anterior aos evangelhos. De fato, a redação dos evangelhos está entre os anos 70 e 100. Os escritos paulinos são mais antigos, a partir de 50. Ora, tendo o Senhor morrido nos anos 30, tais escritos são mais que provas cabais da realidade institucional da Igreja, pois neles se encontram sua fundação e estruturação. A Igreja não é um movimento paralelo ao cristianismo, mas sua realidade. Acreditar que o verdadeiro cristianismo corre em separado da Igreja é desacreditar na mensagem de Jesus compilada nos evangelhos e transmitidas pela tradição da mesma Igreja. O autor até tenta citar os textos dos Atos dos Apóstolos pra dizer deste cristianismo marginal, mas cai assim em contradição, pois o Novo Testamento foi todo escrito e compilado pela Igreja Apostólica. Cristãos não são outros que os membros da Igreja de Cristo.
Se não houvesse Igreja Católica, não haveria Novo Testamento e nem cristãos. A Igreja é consequência e legado de Jesus.
O verdadeiro alento a quem se sente sozinho na Igreja ou fora dela, a quem se sente triste com a Igreja ou sem Ela, é que Jesus fundou a sua única Igreja e não a deixou desamparada. Quando incumbiu a Pedro de continuar sua obra, dotou a ele e à Igreja enquanto instituição da assistência divina. A Igreja é obra de Deus e não pode uma obra de Deus falhar. Só o Espírito de Deus faz perdurar uma obra que traz em si tantos homens pecadores.
De resto, o artigo se baseia em vários preconceitos contra o papa, arraigados na mente dos inimigos da Igreja, amigos das próprias vontades e convicções. Bento XVI não introduziu a Missa em latim, ela sempre existiu e nunca foi proibida; a reconciliação com os cismáticos é um dever de caridade que não abriu mão da verdade; ninguém fez mais pelo combate ao crime da pedofilia que Ratzinger; ninguém entende melhor a questão da AIDS que a Igreja.
Quem está interessado em "performances mediáticas"? A Igreja que defende a verdade mesmo contra a maioria ou um pretenso-iluminado-brasileiro-revoltado-que-quer-ensinar-o-papa-a-rezar?
sábado, 4 de junho de 2011
O ecumenismo católico
Jesus Cristo fundou a sua Igreja, e confiou-a a Pedro e seus sucessores, como narram os evangelhos. Esta única Igreja tem quatro notas características:
O objetivo do ecumenismo católico é “reconciliar todos os cristãos na unidade de uma só e única Igreja de Cristo” (UR 24). “Esta Igreja, constituída e organizada neste mundo como sociedade, é na Igreja católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em união com ele, que se encontra, embora, fora da sua comunidade, se encontrem muitos elementos de santificação e de verdade, os quais, por serem dons pertencentes à Igreja de Cristo, impelem para a unidade católica.” (LG 8)quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Cresce o índice de confiança na Igreja, segundo FGV
A Igreja Católica ocupa a 2ª posição no ranking de confiança da população brasileira nas instituições. O número faz parte do Índice de Confiança na Justiça (ICJ Brasil), produzido pela Escola de Direito da Fundação Getulio Vargas em São Paulo (Direito GV), referente ao 3º trimestre do ano (jul-set).
Segundo a pesquisa espontânea, 54% das pessoas entrevistadas consideraram a Igreja uma instituição confiável, atrás apenas das Forças Armadas, que obteve 66% de confiabilidade.
No 2º trimestre (abr-jun), a Igreja ocupava a sétima posição, com 34%.
Para Luciana Gross Cunha, professora da Escola de Direito da FGV-SP e coordenadora do ICJ Brasil, podem ter pesado para o aumento do índice tanto a controvérsia sobre o aborto travada entre o primeiro e o segundo turno das eleições presidenciais quanto a baixa da confiança nos três meses anteriores por causa das acusações de pedofilia contra padres. A próxima pesquisa deverá confirmar os dados.
Fontes:
Diário Catarinense, Estadão, Portal Canção Nova, FGV
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja
Apresentamos a Exortação Apostólica pós-sinodal Verbum Domini sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja
Todos recordam que que há dois anos, de 5 a 26 de outubro de 2008, los bispos de todo o mundo se reuniram, convocados pelo Santo Padre, para dialogar acerca da Palavra de Deus na vida e missão da Igreja.
Agora, em 11 de novembro de 2010, o Papa publicou a Exortação apostólica Verbum Domini, na qual nos dá a conhecer as conclusões daquela reunião.
É um documento precioso que nenhum católico pode deixar de ler, no que o Papa nos exorta em cada parágrafo a ter cada vez mais familiaridade com a Sagrada Escritura e tomá-la sempre em conta em nossa vida ordinária de homens e cristãos.
A exortação consta de três partes:
PRIMEIRA PARTE
A primeira parte é intitulada Verbum Dei e o Papa fala sobre o papel de Deus, o Pai, como fonte e origem da palavra.
Está dividida em três capítulos:
1."O Deus que fala" Trata da "vontade de Deus para abrir e manter um diálogo com os seres humanos, em que Deus toma a iniciativa e se revela de várias maneiras".
2. "A resposta do homem ao Deus que fala" Trata de como "o homem é chamado a entrar na aliança com seu Deus que ouve e responde às suas perguntas. Um Deus que fala, o homem responde com a fé.".
3. "A hermenêutica das Sagradas Escrituras na Igreja". Trata da interpretação correta da Sagrada Escritura (hermenêutica) que exige a complementariedade dos sentidos literal e espiritual, uma harmonia entre fé e razão.
SEGUNDA PARTE
A segunda parte é intitulada "Verbum in Ecclesia" e consiste em três capítulos:
1. "A Palavra de Deus e a Igreja", fala que "graças à Palavra de Deus e à ação sacramental, Jesus Cristo é contemporâneo aos homens na vida da Igreja. "
2. "A Liturgia, lugar privilegiado da Palavra de Deus" fala do "nexo vital entre as Escrituras e os sacramentos, especialmente da Eucaristia." A importância do lecionário, a leitura e a homilia.
3. "A Palavra de Deus na vida da Igreja", aqui é o lugar onde o Papa fala da "importância da formação bíblica dos cristãos, a Bíblia Sagrada na pastoral, na catequese, nos grandes encontros eclesiais, e em relação com as vocações."
TERCEIRA PARTE
A terceira parte, intitulada "Verbum mundo", fala do dever de todos os cristãos de proclamar a Palavra de Deus no mundo em que vivemos e trabalhamos. Composta por quatro capítulos:
1. "A missão da Igreja: anunciar a Palavra de Deus ao mundo", fala de como a Igreja está orientada para proclamar o Evangelho àqueles que não conhecem a Jesus Cristo, mas também aqueles que foram batizados, mas que precisam de uma nova evangelização .
2. "Palavra de Deus e compromisso com o mundo", o Papa recorda que os cristãos são chamados a servir a Deus nos menores dos irmãos.
3. "A Palavra de Deus e as culturas". O Papa expressou sua esperança de que a Bíblia seja mais conhecida nas escolas e universidades e que os meios de comunicação social usem todas as possibilidades técnicas para sua difusão.
4. "Palavra de Deus e o diálogo inter-religioso" O Papa dá algumas indicações úteis sobre o diálogo entre cristãos e pessoas de outras religiões não-cristãs.
Não faltam no documento indicações e sugestões muito práticas, como por exemplo, que todas as famílias tenham uma Bíblia em casa e que possam ler e rezar com ela.
Autor: Lucrecia Rego de Planas | Fuente: Catholic.net
Tradução: Márcio Carvalho
Documento completo: vatican.va
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Papa Bento XVI: Carta aos seminaristas
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| Bento XVI começa a carta lembrando seus dias de seminário. Na foto, Joseph Ratzinger (à direita) e seu irmão Georg no dia seguinte a ordenação ocorrida em 29 de junho de 1951. |
Necessidade de sacerdotes: "os homens sempre terão necessidade de Deus – mesmo na época do predomínio da técnica no mundo e da globalização –, do Deus que Se mostrou a nós em Jesus Cristo e nos reúne na Igreja universal, para aprender, com Ele e por meio d’Ele, a verdadeira vida e manter presentes e tornar eficazes os critérios da verdadeira humanidade. Sempre que o homem deixa de ter a noção de Deus, a vida torna-se vazia; tudo é insuficiente. Depois o homem busca refúgio na alienação ou na violência, ameaça esta que recai cada vez mais sobre a própria juventude. Deus vive; criou cada um de nós e, por conseguinte, conhece a todos. [...] Deus vive, e precisa de homens que vivam para Ele e O levem aos outros. Sim, tem sentido tornar-se sacerdote: o mundo tem necessidade de sacerdotes, de pastores hoje, amanhã e sempre enquanto existir."
O sacerdote deve ser homem de oração: "O sacerdote não é o administrador de uma associação qualquer, cujo número de membros se procura manter e aumentar. É o mensageiro de Deus no meio dos homens; quer conduzir a Deus, e assim fazer crescer também a verdadeira comunhão dos homens entre si. Por isso, queridos amigos, é muito importante aprenderdes a viver em permanente contacto com Deus. Quando o Senhor fala de «orar sempre», naturalmente não pede para estarmos continuamente a rezar por palavras, mas para conservarmos sempre o contacto interior com Deus. Exercitar-se neste contacto é o sentido da nossa oração."
A Eucarisitia e sua celebração litúrgica como centro: "O centro da nossa relação com Deus e da configuração da nossa vida é a Eucaristia; [...] Para uma recta celebração eucarística, é necessário aprendermos também a conhecer, compreender e amar a liturgia da Igreja na sua forma concreta. Na liturgia, rezamos com os fiéis de todos os séculos; passado, presente e futuro encontram-se num único grande coro de oração. A partir do meu próprio caminho, posso afirmar que é entusiasmante aprender a compreender pouco a pouco como tudo isto foi crescendo, quanta experiência de fé há na estrutura da liturgia da Missa, quantas gerações a formaram rezando."
Necessidade da Penitência: "Importante é também o sacramento da Penitência. Ensina a olhar-me do ponto de vista de Deus e obriga-me a ser honesto comigo mesmo; leva-me à humildade. [...] Na grata certeza de que Deus me perdoa sempre de novo, é importante continuar a caminhar, sem cair em escrúpulos mas também sem cair na indiferença, que já não me faria lutar pela santidade e o aperfeiçoamento. E, deixando-me perdoar, aprendo também a perdoar aos outros; reconhecendo a minha miséria, também me torno mais tolerante e compreensivo com as fraquezas do próximo."
Respeito pela piedade popular: "Mantende em vós também a sensibilidade pela piedade popular, que, apesar de diversa em todas as culturas, é sempre também muito semelhante, porque, no fim de contas, o coração do homem é o mesmo. [...] Seguramente a piedade popular deve ser sempre purificada, referida ao centro, mas merece a nossa estima; de modo plenamente real, ela faz de nós mesmos «Povo de Deus»."
Estudar com empenho: "Fazei render os anos do estudo! Não vos arrependereis. É certo que muitas vezes as matérias de estudo parecem muito distantes da prática da vida cristã e do serviço pastoral. Mas é completamente errado pôr-se imediatamente e sempre a pergunta pragmática: Poderá isto servir-me no futuro? Terá utilidade prática, pastoral? É que não se trata apenas de aprender as coisas evidentemente úteis, mas de conhecer e compreender a estrutura interna da fé na sua totalidade, de modo que a mesma se torne resposta às questões dos homens, os quais, do ponto de vista exterior, mudam de geração em geração e todavia, no fundo, permanecem os mesmos. Por isso, é importante ultrapassar as questões volúveis do momento para se compreender as questões verdadeiras e próprias e, deste modo, perceber também as respostas como verdadeiras respostas."
Amadurecimento humano e sexualidade: "Para o sacerdote, que terá de acompanhar os outros ao longo do caminho da vida e até às portas da morte, é importante que ele mesmo tenha posto em justo equilíbrio coração e intelecto, razão e sentimento, corpo e alma, e que seja humanamente «íntegro». [...] Faz parte deste contexto também a integração da sexualidade no conjunto da personalidade. A sexualidade é um dom do Criador, mas também uma função que tem a ver com o desenvolvimento do próprio ser humano. Quando não é integrada na pessoa, a sexualidade torna-se banal e ao mesmo tempo destrutiva."
Servir à unidade da Igreja: "Os movimentos são uma realidade magnífica; sabeis quanto os aprecio e amo como dom do Espírito Santo à Igreja. Mas devem ser avaliados segundo o modo como todos se abrem à realidade católica comum, à vida da única e comum Igreja de Cristo que permanece uma só em toda a sua variedade. [...] Na convivência, por vezes talvez difícil, deveis aprender a generosidade e a tolerância não só suportando-vos mutuamente, mas também enriquecendo-vos um ao outro, de modo que cada um possa contribuir com os seus dotes peculiares para o conjunto, enquanto todos servem a mesma Igreja, o mesmo Senhor. Esta escola da tolerância, antes do aceitar-se e compreender-se na unidade do Corpo de Cristo, faz parte dos elementos importantes dos anos de Seminário."
Texto na íntegra em http://www.radiovaticana.org/POR/Articolo.asp?c=431640
sábado, 12 de junho de 2010
Autoridade e hierarquia são serviço
Recordou o Papa na audiência geral de 26 de maio de 2010 (grifos meus):
"O que é realmente, para nós cristãos, a autoridade? As experiências culturais, políticas e históricas do passado recente, sobretudo as ditaduras na Europa do Leste e do Oeste no século XX, tornaram o homem contemporâneo suspeitoso em relação a este conceito. [...] Mas precisamente o olhar sobre os regimes que, no século passado, semearam terror e morte, recorda com vigor que a autoridade, em qualquer âmbito, quando é exercida sem uma referência ao Transcendente, se prescindir da Autoridade suprema, que é Deus, acaba inevitavelmente por se voltar contra o homem. É importante então reconhecer que a autoridade humana nunca é um fim, mas sempre e só um meio e que, necessariamente e em cada época, o fim é sempre a pessoa, criada por Deus com a própria intangível dignidade e chamada a realizar-se com o próprio Criador, no caminho terreno da existência e na vida eterna; é uma autoridade exercida na responsabilidade diante de Deus, do Criador. Uma autoridade tão intensa, que tenha como única finalidade servir o verdadeiro bem das pessoas e ser transparência do único Bem Supremo que é Deus, não só é alheia aos homens, mas, ao contrário, é uma preciosa ajuda no caminho para a plena realização em Cristo, rumo à salvação.
A Igreja está chamada e compromete-se a exercer este tipo de autoridade que é serviço, e exerce-a não em seu nome, mas no de Jesus Cristo, que do Pai recebeu todo o poder no Céu e na terra (cf. Mt 28, 18). De facto, através dos Pastores da Igreja Cristo apascenta a sua grei: é Ele quem a guia, protege e corrige, porque a ama profundamente. Mas o Senhor Jesus, Pastor supremo das nossas almas, quis que o Colégio Apostólico, hoje os Bispos, em comunhão com o Sucessor de Pedro, e os sacerdotes, seus mais preciosos colaboradores, participassem nesta sua missão de se ocupar do Povo de Deus, de ser educadores na fé, orientando, animando e apoiando a comunidade cristã ou, como diz o Concílio, cuidassem "para que cada fiel seja levado, no Espírito Santo, a cultivar a própria vocação segundo o Evangelho, a uma caridade sincera e activa e à liberdade com que Cristo nos libertou" (Presbyterorum ordinis, 6). Portanto, cada Pastor é o meio através do qual o próprio Cristo ama os homens: é mediante o nosso ministério – queridos sacerdotes – é através de nós que o Senhor alcança as almas, as instrui, guarda e guia."
"Se esta tarefa pastoral se funda no Sacramento, contudo a sua eficácia não é independente da existência pessoal do presbítero. Para ser Pastor segundo o coração de Deus (cf. Jr 3, 15) é preciso um radicamento profundo na amizade viva com Cristo, não só da inteligência, mas também da liberdade e da vontade, uma consciência clara da identidade recebida na Ordenação sacerdotal, uma disponibilidade incondicionada a conduzir o rebanho confiado aonde o Senhor quer e não na direcção que, aparentemente, parece mais conveniente ou mais fácil."
"Nos últimos decénios, utilizou-se muitas vezes o adjectivo "pastoral" quase em oposição ao conceito de "hierárquico", assim como, na mesma contraposição, foi interpretada também a ideia de "comunhão". Talvez seja este o ponto sobre o qual pode ser útil uma breve observação sobre a palavra "hierarquia", que é a designação tradicional da estrutura de autoridade sacramental na Igreja, ordenada segundo os três níveis do Sacramento da Ordem: episcopado, presbiterado, diaconado. Prevalece na opinião pública, para esta realidade "hierárquica", os elementos de subordinação e jurídico; por isso para muitos a ideia de hierarquia parece estar em contraste com a flexibilidade e com a vitalidade do sentido pastoral e também ser contrária à humildade do Evangelho. Mas este é um sentido da hierarquia compreendido mal, historicamente também causado por abusos de autoridade e por carreirismo, que são precisamente abusos e não derivam do ser próprio da realidade "hierárquica". A opinião comum é que "hierarquia" é sempre algo relacionado com o domínio e assim não correspondente ao verdadeiro sentido da Igreja, da unidade no amor de Cristo. Mas, como eu disse, esta é uma interpretação errada, que tem origem em abusos da história, mas não corresponde ao verdadeiro significado daquilo que é a hierarquia. Comecemos com a palavra. Geralmente, diz-se que o significado da palavra hierarquia seria "domínio sagrado", mas o verdadeiro significado não é este, é "origem sagrada", ou seja: esta autoridade não provém do próprio homem, mas tem origem no sagrado, no Sacramento; submete portanto a pessoa à vocação, ao mistério de Cristo; faz do indivíduo um servo de Cristo e só como servo de Cristo ele pode governar, guiar para Cristo e com Cristo. Por isso quem entra na Ordem sagrada do Sacramento, a "hierarquia", não é um autocrata, mas entra num vínculo novo de obediência a Cristo: está ligado a Ele em comunhão com os outros membros da Ordem sagrada, do Sacerdócio. E também o Papa ponto de referência de todos os outros Pastores e da comunhão da Igreja não pode fazer o que quiser; ao contrário, o Papa é guardião da obediência a Cristo, à sua palavra resumida na "regula fidei", no Credo da Igreja, e deve preceder na obediência a Cristo e à sua Igreja. Hierarquia implica por conseguinte um tríplice vínculo: antes de tudo com Cristo e com a ordem dada pelo Senhor à sua Igreja; depois o vínculo com os outros Pastores na única comunhão da Igreja; e, por fim, o vínculo com os fiéis confiados a cada um, na ordem da Igreja."
"O modo de governar de Jesus não é o do domínio, mas é o serviço humilde e amoroso do Lava-pés, e a realeza de Cristo sobre o universo não é um triunfo terreno, mas encontra o seu ápice no madeiro da Cruz, que se torna juízo para o mundo e ponto de referência para a prática da autoridade, que seja verdadeira expressão da caridade pastoral."
texto na íntegra aqui.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
"O culto não pode nascer da nossa fantasia"
O Sucessor de Pedro manifestou aos bispos do Pará e Amapá, 15 de abril no Vaticano, em visita ad limina, sua preocupação constante "por tudo o que possa ofuscar o ponto mais original da fé católica": Jesus Cristo "vivo e realmente presente na hóstia e no cálice consagrados.""Ora, a atitude primária e essencial do fiel cristão que participa na celebração litúrgica não é fazer, mas escutar, abrir-se, receber… ", disse o Papa referindo-se às comunidades que não preservam o recolhimento na liturgia, atarefando-se em introduzir elementos que ofuscam o mistério. Afastam-se da verdadeira natureza da Igreja aqueles que, "em nome da inculturação, decaem no sincretismo introduzindo ritos tomados de outras religiões ou particularismos culturais na celebração da Santa Missa".
Bento XVI também rejeita o erro de pensar a Eucaristia simplesmente como "um encontro fraterno ao redor da mesa" desprovido de valor sacrifical, como já dissera o Servo de Deus João Paulo II.
Por fim, o Sumo Pontífice deseja que Jesus Eucarístico "seja verdadeiramente o coração do Brasil, donde venha a força para todos homens e mulheres brasileiros se reconhecerem e ajudarem como irmãos, como membros do Cristo total." E convida: "Quem quiser viver, tem onde viver, tem de que viver. Aproxime-se, creia, entre a fazer parte do Corpo de Cristo e será vivificado!"
Leia o discurso completo aqui.
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Ressurreição, uma nova criação
sexta-feira, 26 de março de 2010
Declarações sobre os casos de pedofilia

quarta-feira, 10 de março de 2010
Contra a tese da ruptura histórica na Igreja de Cristo
2. Jesus Cristo é a última palavra de Deus - n'Ele, Deus disse tudo, dizendo e dando a si mesmo. [...] Portanto, não há um outro Evangelho superior, não há uma outra Igreja a se esperar. [...]
3. Isso não significa que a Igreja seja imóvel, fixa no passado, e não possa exercer novidade alguma"
quarta-feira, 3 de março de 2010
Campanha da Fraternidade empobrece a Quaresma
Tenho dito. Um tempo de preparação para a Páscoa, acima de tudo, ajudados pela penitência, a contemplação do Mistério da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, a oração, a esmola, o jejum. Eis o que deveria ser a Quaresma.
A celebração do católico é a Santa Missa, a Eucaristia, "fonte e ápice de toda a vida cristã", memorial do Sacrifício Redentor. Ela não é palco para discussão de temas.
A inserção da Campanha da Fraternidade no período da Quaresma empobrece as liturgias. Há alguns anos não havia mais cantos quaresmais, mas apenas os "cantos da Campanha", que mudavam a cada ano, gerando desconfortos mil. Fato é que agora só há um hino, mas que continua sendo colocado no momento errado. Os cantos quaresmais e o silêncio dos instrumentos é substituído por animadas canções temáticas. O despojamento do espaço litúrgico dá lugar a cartazes e outras firulas.
Uma pesquisa realizada pelo blogueiro Jorge Ferraz confirma este meu sentimento. Foi pesquisado no texto-base da Campanha da Fraternidade 2010 vários termos e contado suas ocorrências. O resultado estatístico fala por si mesmo:
- “Jesus”: 37 ocorrências (“Nosso Senhor”, uma única ocorrência, na oração da CFE).
- “Católica” e “católicos”: 8 ocorrências.
- “Conversão” (e derivados): 7 ocorrências.
- “Oração”: 5 ocorrências (sendo duas vezes no título “oração da CFE 2010″, a do índice e a da página correspondente).
- “Caridade”: 4 ocorrências.
- “Esmola”: 3 ocorrências.
- “Pecado” (e derivados): 2 ocorrências.
- “Jejum”: 2 ocorrências (e recomendo que vejam quais são!!).
- “Virgem Maria” (a pesquisa foi feita por “Maria”): 2 ocorrências (“Nossa Senhora”, nenhuma).
- “Arrependimento” (e derivados): 2 ocorrências.
- “Sacramento”: 2 ocorrências.
- “Papa”: 2 ocorrências.
- “Magistério”: 1 ocorrência.
- “Penitência”: nenhuma ocorrência.
- “Eucaristia”: nenhuma ocorrência.
- “Missa”: nenhuma ocorrência.
- “Sacerdote”: nenhuma ocorrência.
- “Calvário”: nenhuma ocorrência.
- “Cruz”: nenhuma ocorrência.
- “Trindade”: nenhuma ocorrência.
- “Santificação”: nenhuma ocorrência (“santificar” tem duas, no comentário sobre o Pai Nosso).
- “Redenção” (e derivados): nenhuma ocorrência (“Redentor” aparece uma única vez, numa nota de rodapé, em referência – pasmem! – a um livro sobre Martin Luther King, chamado “O Redentor Negro”! Está à página 55).
- “Confissão” (sacramento): nenhuma ocorrência (há duas referências a “confissão”, na expressão “Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil”, com as maiúsculas por conta da CNBB).
- “Economia (e derivados): 142 ocorrências.
- “Solidariedade” (e derivados): 81 ocorrências.
- “Pobre” (e derivados): 75 ocorrências.
- “Direito(s)”: 74 ocorrências.
- “Terra”: 64 ocorrências.
- “Trabalho”: 56 ocorrências.
- “Social” (e derivados): 54 ocorrências.
- “Política” (e derivados): 39 ocorrências.
- “Mercado” e “Mercadoria”: 30 ocorrências.
- “Desenvolvimento”: 29 ocorrências.
- “Povo”: 27 ocorrências.
- “Miséria”: 12 ocorrências.
- “Exploração” (e derivados): 11 ocorrências.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Igreja não pode tornar-se uma democracia
O cardeal secretário de Estado observou ainda que as origens e os fins de ambos são diferentes, embora "não faltem também na Igreja elementos de forte afinidade "que a fazem respirar democraticamente", a partir da "centralidade da pessoa humana": e não há duvida de que "um impulso decisivo" nesse sentido tenha sido dado pelo Concílio Vaticano II – disse.
O purpurado defendeu que a Igreja não pode tornar-se uma democracia, embora diversos movimentos hoje reclamem a sua "democratização" "para se passar de uma Igreja considerada paternalista", "colocada de cima para baixo", "a uma Igreja-comunidade".
Essas críticas e aspirações correspondem à idéia de "uma Igreja que se constitui mediante discussões, acordos, decisões e que, no debate, faz emergir aquilo que pode ser exigido do fiel". E "também a liturgia não foge desse processo, na medida em que não deve corresponder a um esquema prévio já estabelecido", mas surgir "por obra da comunidade pela qual é celebrada".
Uma Igreja, fruto de autodeterminação democrática, apresenta, porém, perguntas precisas: "A quem cabe o direito de tomar decisões? As decisões devem ser tomadas baseadas em que?"
O secretário de Estado vaticano observou que "uma Igreja que repousa somente em decisões da maioria se torna uma Igreja puramente humana, reduzida a nível daquilo que é factual e plausível", "onde a opinião substitui a fé".
Então, como "superar uma análoga crise"? O Cardeal Bertone indicou, em primeiro lugar, o caminho da "comunhão" eclesial, fazendo e decidindo juntos, porque – ressaltou – convocados por Cristo a construir a Igreja para anunciar a salvação do mundo, priorizando o testemunho, e não a representatividade."
Erros de certas Teologias da Libertação
Márcio Carvalho da Silva
* * *
Erros de certas T.L.
"O apelo urgente que o Papa Bento XVI endereçava aos Bispos dos Regionais 3 e 4 da CNBB, em visita “ad límina” a 5 de dezembro 2009, não se limitou aos Bispos que estavam presentes, mas, como sempre nessas visitas, se dirige ao Episcopado inteiro e a toda a Igreja no Brasil".
Em tal visita, o Santo Padre lembrou as orientações da Santa Sé no Documento “Libertatis Nuntius”, sobre a T.L. No documento, se afirma que “o Evangelho é a mensagem da liberdade e a força da libertação”. "Daquele documento, a Igreja recebia grande luz; mas não faltava a animosidade dos que queriam obscurecer e difamar essa doutrina."
O Papa lembrou que o Brasil sofreu uma grande crise, provocada "por uma teologia que tinha, em seu início, motivos ideais, mas que se entregou a princípios enganadores."
"Urge que todos os pastores acolham a palavra do Papa e se lembrem daquela crise, que tornava quase impossível, mesmo em ambientes às vezes de alto nível eclesiástico, o diálogo e a discussão serena. Hoje ainda, a Igreja no Brasil, em alguns lugares, sofre consequências dolorosas daqueles desvios."
"Ao relativizar, silenciar ou até hostilizar partes essenciais do “depósito da fé”, a Teologia da Libertação negligenciava “a regra suprema da Fé da Igreja, que provém da unidade que o Espírito Santo estabeleceu entre a Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério vivo”, diz Bento XVI, citando as palavras do Papa João Paulo II (“Fides et Ratio”, 55). “Os três não podem subsistir independentes” entre si. – Por isso, hoje ainda, as sequelas da Teologia da Libertação se mostram essencialmente ao nível da Eclesiologia, ao nível da vida e da união da Igreja. A Igreja continua enfraquecida, em algumas partes, pela “rebelião, divisão, dissenso, ofensa e anarquia” (mensagem de Bento XVI). Diz o Santo Padre: Cria-se assim “nas vossas comunidades diocesanas grande sofrimento e grave perda de forças vivas” (Bento XVI, idem)."
"Infelizmente, certas Teologias da Libertação, as que mais espaço ocupavam na opinião pública, caíram em um grave unilateralismo. Para o Evangelho da libertação é fundamental a libertação do pecado. Tal libertação exige “por consequência lógica a libertação de muitas outras escravidões, de ordem cultural, econômica, social e política”, todas elas derivadas do pecado. Muitas Teologias da Libertação afastaram-se deste verdadeiro Evangelho libertador. Identificaram-se, coisas em si muito boas, com as graves questões sociais, culturais, econômicas e políticas, mas já não mostrando seu real enraizamento no Evangelho, embora vagamente citado, e chegaram até a apelar explicitamente à “análise” marxista. Silenciavam, ou ignoravam, que “na lógica marxista não é possível dissociar a «análise» da «práxis» e da concepção da história” (VIII,2). Destarte, “a própria concepção da verdade encontra-se totalmente subvertida” (VIII,4)."
"O Santo Padre, sabendo que, sob muitos aspectos a Teologia da Libertação está ultrapassada, sabe também e vê que a Igreja no Brasil sofre ainda devastadoras sequelas de tal desvio doutrinário, propagado longamente até por gente bem intencionada, mas não capaz de analisar seus falsos princípios."
"É quase um juramento que o Papa conclama os Bispos e agentes de Pastoral de todo o Brasil: “Que, no âmbito dos entes e comunidades eclesiais, o perdão oferecido e acolhido em nome e por amor da Santíssima Trindade, que adoramos em nossos corações, ponha fim à tribulação da querida Igreja que peregrina nas Terras da Santa Cruz” (final da mensagem de Bento XVI)."
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Motu Proprio “Omnium in Mentem”
Tradução ao português do Motu Proprio publicado em 15 de dezembro de 2009, que altera alguns textos do Código de Direito Canônico referentes ao matrimônio e ao diaconato.
Versões oficiais em italiano e latim. Tradução em espanhol da Agência Zenit.
A Constituição Apostólica Sacrae disciplinae leges, promulgada em 25 de janeiro de 1983, chamava a atenção de todos que a Igreja, enquanto uma comunidade ao mesmo tempo espiritual e visível, e organizada hierarquicamente, necessita de normas jurídicas "para que o exercício das funções que lhe foi confiada por Deus, especialmente a do poder sagrado e da administração dos sacramentos, possa ser adequadamente organizado. " Em tais normas é necessário que resplandeça sempre, por um lado, a unidade da doutrina teológica e da lei canônica, e, por outro, a utilidade pastoral das prescrições, através as quais as disposições eclesiásticas são ordenadas para o bem das almas.
Com o fim de garantir mais eficazmente tanto esta necessária unidade doutrinal como a finalidade pastoral, às vezes a autoridade suprema da Igreja, depois de pesar as razões, decide as alterações adequadas às normas canônicas, ou introduz nelas alguma integração. Esta é a razão que nos leva a escrever esta carta, que diz respeito a duas questões.
Primeiro, nos cânones 1008 e 1009 do Código de Direito Canônico sobre o sacramento da Ordem, confirmando a distinção essencial entre o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial e, ao mesmo tempo, se diferencia entre o episcopado, o sacerdócio e diaconato. É por isso que, depois de ouvir os Padres da Congregação para a Doutrina da Fé, o nosso venerado predecessor João Paulo II estabeleceu que era devido a reformular o número 1581 do Catecismo da Igreja Católica a fim de recolher a melhor doutrina dos diáconos da Constituição Dogmática Lumen Gentium (n º 29) do Concílio Vaticano II, também consideramos dever perfeccionar a norma canônica sobre o mesmo assunto. Portanto, ouvido os pareceres do Conselho Pontifício para os Textos Legislativos, estabelecemos que as palavras de tais cânones sejam modificadas como se segue.
Além disso, dado que os sacramentos são os mesmos para toda a Igreja, é competência unicamente da suprema autoridade aprovar e definir os requisitos para sua validade, e também determinar o que se refere ao rito que é necessário observar na celebração dos mesmo ( cf. can. 841), que certamente também se aplica à maneira como ele deve observar-se na celebração do matrimônio, se pelo menos uma das partes tenha sido batizado na Igreja Católica (cf. cân. 11, 1108).
O Código de Direito Canónico estabelece ainda que os fiéis que foram separados da Igreja com o "ato formal", não são obrigados pelas leis eclesiásticas relativas à forma canônica do matrimônio (cf. cân. 1117), à dispensa de impedimento por disparidade de culto (cf. cân. 1086) e do pedido de licença necessária para casamentos mistos (cf. cân. 1124). A razão e o propósito desta exceção à regra geral da Canon 11 tinha como fim evitar que os matrimônios contraídos por esses fiéis fossem nulos por defeito de forma, ou por impedimento pela disparidade de culto.
No entanto, a experiência destes anos tem demonstrado, ao contrário, que esta nova lei tem gerado não poucos problemas pastorais. Primeiro de tudo, tornou-se difícil a determinação e a configuração prática, em casos individuais, desse ato formal de separação da Igreja, quer em termos do seu conteúdo teológico, quer em termos de seu aspecto canônico. Além disso, tem havido muitas dificuldades tanto na práxis pastoral quanto nos tribunais. De fato, se observa que da nova lei pareciam nascer, pelo menos indiretamente, uma certa facilidade, ou como se fosse um incentivo para a apostasia nos locais onde os fiéis são em número reduzido, ou também onde as leis matrimoniais existentes são injustas, que estabeleçam discriminações entre os cidadãos por motivos religiosos; também dificultava a volta desses batizados que desejavam contrair um novo matrimônio canônico, após o fracasso do precedente; finalmente, omitindo outras coisas, muitos desses matrimônios se convertiam de fato para a Igreja em matrimônios chamados clandestinos.
Considerando tudo isso, e avaliados cuidadosamente os pareceres dos Padres da Congregação para a Doutrina da Fé e do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, bem como das Conferências Episcopais que foram consultadas sobre a utilidade pastoral de conservar ou ab-rogar essa excepção à regra geral do Canon 11, pareceu necessário abolir essa regra do corpo da lei canônica em vigor.
Estabelecemos portanto que se elimine do mesmo Código as palavras "e não separado dela com ato formal" do cânone 1117, "e não separado dela por ato formal" do cânon 1086 § 1 º, bem como "e não separado da mesma com ato formal" do cânon 1124.
Portanto, tendo ouvido a respeito a Congregação para a Doutrina da Fé e o Pontifício Conselho para os Textos Legislativos e pedido o parecer também de nossos veneráveis irmãos Cardeais da Santa Igreja prepostos nos dicastérios da Cúria Romana, estabelecemos o seguinte:
Artigo 1. O texto do can. 1008 do Código de Direito Canônico, seja alterado de modo que, doravante resulte assim:
"Com o sacramento da ordem, por instituição divina, alguns entre os fiéis, através do caráter indelével com que são assinalados, são constituídos ministros sagrados; aqueles portanto que são consagrados destinam-se a servir, cada um no seu grau, com novo e peculiar título, o povo de Deus. "
Artigo 2. O Can. 1009 do Código de Direito Canónico, agora terá três parágrafos, o primeiro dos quais mantém o atual texto do cânon, enquanto que no terceiro, o novo texto será redigido de modo que o can. 1009 § 3 resulte assim:
"Aqueles que estão constituídos na ordem dos bispos ou sacerdotes recebem a missão e o poder de agir na pessoa de Cristo Cabeça; os diáconos são habilitados para servir o povo de Deus na diaconia da liturgia, da palavra e caridade ".
Artigo 3. O texto do can. 1086 § 1 do Código de Direito Canônico é alterado como segue:
"É inválido o matrimônio entre duas pessoas, das quais uma é batizada na Igreja Católica ou acolhida nela, e a outra não é batizada".
Artigo 4. O texto do can. 1117 do Código de Direito Canônico é alterado como segue:
"A forma estabelecidos acima deve ser observada se pelo menos uma das partes contraentes do matrimônio é batizada na Igreja Católica ou acolhida nela, salvas as disposições do cân. 1127 § 2".
Artigo 5. O texto do can. 1124 do Código de Direito Canônico é alterado como segue:
"O matrimônio entre duas pessoas batizadas na Igreja católica ou nela acolhida depois do batismo, em que uma esteja ligada a uma Igreja ou comunidade eclesial não em plena comunhão com a Igreja Católica, não pode ser realizada sem licença da autoridade competente ".
Como temos deliberado com esta Carta Apostólica em forma de Motu Proprio, ordenamos que tenha firme e estável vigor, não obstante qualquer disposição em contrário ainda digna de menção particular, e que seja publicada no comentário oficial da Acta Apostolicae Sedis.
Dado em Roma, em São Pedro, no dia 26 de outubro de 2009, o quinto do nosso Pontificado.
BENEDICTUS PP XVI
sábado, 5 de dezembro de 2009
Papa adverte sobre perigos de teologia marxista da libertação e pede superar suas graves consequências

Notícias recolhida e traduzida de http://www.aciprensa.com/noticia.php?n=27796
VATICANO, 05 Dic. 09 / 08:22 am (ACI)
O Papa Bento XVI advertiu sobre os perigos da teologia da libertação marxista e encorajou a superar as suas graves consequências no meio das comunidades eclesiais, como a rebelião e discórdia, à luz da Instrução Libertatis Nuncius que completa 25 anos de publicação e foi escrito quando ele era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.
Ao receber neste meio-dia do grupo de Bispos do Brasil do Sul 3 e Sul 4 em visita ad limina, o Santo Padre recordou que "em agosto passado se completou o 25 º aniversário da Instrução Libertatis Nuncius da Congregação para a Doutrina da Fé sobre alguns aspectos da teologia da libertação, que sublinha os perigos da aceitação acrítica, realizada por alguns teólogos, de teses e metodologias do marxismo ".
Bento XVI advertiu, tendo refletido sobre o papel das universidades católicas, que os vestígios da teologia da libertação marxista "mais ou menos visíveis de rebelião, divisão, dissidência, insulto, anarquia, ainda estão sendo sentidos, criando em suas comunidades diocesanas grande sofrimento e grande perda de forças de trabalho".
Por esse motivo, o Papa exortou "todos aqueles que de alguma forma se sentem atraídos, envolvidos e afetados no íntimo por certos princípios enganosos da teologia da libertação, que se confrontem novamente com a referida Instrução, acolhendo a luz benigna que a mesma oferece com mão estendida ".
Bento XVI recordou também "a regra suprema da fé da Igreja provém efetivamente da unidade que o Espírito estabeleceu entre a Sagrada Tradição, a Sagrada Escritura e do Magistério da Igreja, numa reciprocidade tal que não pode sobreviver de forma independente", como se explica na encíclica Fides et Ratio, de João Paulo II.
"Que no âmbito dos organismos e das comunidades eclesiais, o perdão oferecido e recebido em nome e por amor da Santíssima Trindade, que adoramos em nossos corações, ponha fim às tribulações da querida Igreja que peregrina na Terra da Santa Cruz ", desejou.
A Instrução Libertatis Nuntius foi emitida em 6 de agosto de 1984, após a aprovação do Papa João Paulo II, que o então Cardeal Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, procedeu à publicação.
O objetivo da Instrução, diz o próprio texto, é "atrair a atenção dos pastores, teólogos e todos os fiéis, sobre os desvios e os riscos de desvios, prejudiciais à fé e vida cristã, que envolvem certas formas da teologia da libertação que recorrem, de modo insuficientemente crítico, a conceitos assumidos de diversas correntes do pensamento marxista.
O texto citado diz que "a certeza de que os graves desvios ideológicos" da teologia da libertação marxista "conduz inevitavelmente a trair a causa dos pobres." Entre outras coisas, a Instrução também adverte que a análise marxista da realidade "arrasta as 'teologias da libertação' a aceitar um conjunto de posições incompatíveis com a visão cristã do homem".
Mais informações: http://www.aciprensa.com/apologetica/teologia/libertatis.htm
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Anticatolicismo, um passatempo nacional
O artigo a seguir é uma tradução livre de http://www.archny.org/news-events/columns-and-blogs/blog---the-gospel-in-the-digital-age/index.cfm?i=14042.
O que o Arcebispo de New York escreve sobre os Estados Unidos pode ser aplicado, sem muitas variantes, também ao Brasil, quiçá a todo o mundo ocidental.
Márcio Carvalho da Silva.
Anticatolicismo
29 de outubro de 2009
O artigo a seguir foi apresentado em uma forma ligeiramente mais curta para o New York Times como um artigo de opinião. O jornal se recusou a publicá-lo. Eu acho que você poderia estar interessado em ler.
É falta!
Pelo Arcebispo Timothy M. Dolan
Arcebispo de Nova York
Outubro é o mês que saboreamos o ponto alto do nosso passatempo nacional [se referindo ao futebol americano], especialmente quando uma das nossas equipes de Nova York está na World Series!
Infelizmente, a América tem outro passatempo nacional, não agradável a todos: o anticatolicismo.
Não é exagero chamar o preconceito contra a Igreja Católica um passatempo nacional. Estudiosos como Arthur Schlesinger se referem a ele como "a mais profunda tendência na história do povo americano", enquanto John Higham descreveu como "a mais exuberante e tenaz tradição de agitação paranóica da história americana". "O antissemitismo da esquerda", é como Paul Viereck lê, e o professor Philip Jenkins tem como subtítulo de seu livro sobre o tema "o último preconceito aceitável".
Se você quer os dados mais recentes desta injustiça contra a Igreja Católica, não procure mais do que alguns desses seguintes exemplos de ocorrências ao longo das últimas duas semanas:
* Em 14 de outubro, nas páginas do New York Times, o repórter Paul Vitello expôs o triste caso do abuso sexual infantil na comunidade ortodoxa judaica do Brooklyn. Segundo o artigo, foram quarenta casos de abuso nesta pequena comunidade no ano passado. No entanto, o Times não demanda a mesma chamada quando ao abordar incessantemente o mesmo tipo de abuso por parte de uma pequena minoria de sacerdotes: lançamento dos nomes dos agressores, anulação do estatuto de limitações, inquéritos externos, liberação de todos os registros, e total transparência. Em vez disso, um advogado é citado incitando os policiais a reconhecer "sensibilidades religiosas", e nenhuma crítica foi oferecida do escritório da promotoria para permitir que os rabinos ortodoxos resolvessem esses casos "internamente". Dada a horrível experiência recente própria da Igreja Católica, não estou em boa posição para criticar os nossos vizinhos judeus ortodoxos, e não pretendo fazê-lo. . . mas não posso criticar este tipo de "indignação seletiva".
Naturalmente, esta indignação seletiva provavelmente não deve surpreender-nos em tudo, como já vimos muitos outros exemplos do fenômeno nos últimos anos, quando se trata da questão do abuso sexual. Para citar apenas duas: Em 2004, o professor Carol Shakeshaft documentou o problema generalizado de abuso sexual de menores em escolas públicas do nosso país (o estudo pode ser encontrado aqui, em inglês). Em 2007, a Associated Press publicou uma série de relatórios investigativos que também mostrou os inúmeros exemplos de abuso sexual por educadores contra estudantes de escolas públicas. Tanto o estudo Shakeshaft e os relatórios de AP foram essencialmente ignorados por jornais como o New York Times, que só parecem ter padres em sua mira.
* Em 16 de outubro, Laurie Goodstein no Times ofereceu uma primeira página, sobre a história do triste episódio de um padre franciscano que teve um filho com ela. Mesmo tendo em conta que a relação com a mãe foi consensual e entre dois adultos, e que os franciscanos têm tentado lidar justamente com as responsabilidades do sacerdote errante com seu filho, esta ação é ainda pecaminosa, escandalosa e indefensável. No entanto, alguém ainda tem de se perguntar por que uma velha história de um quarto de século sobre o pecado de um padre agora é mais urgente e interessante do que a guerra no Afeganistão, a saúde, a fome e o genocídio no Sudão. Nenhum outro clérigo de outras religiões não católicas parece merecer tal atenção.
* Cinco dias depois, 21 de outubro, o Times deu sua manchete principal para a decisão do Vaticano de receber os anglicanos, que haviam solicitado a união com Roma. É justo. Desleal, porém, foi a observação do artigo, que a Santa Sé quer atrair os anglicanos. Evidentemente, a realidade é, simplesmente, que há anos milhares de anglicanos têm pedido Roma para serem aceitos na Igreja Católica, com uma sensibilidade especial para a sua própria tradição. Como o Cardeal Walter Kasper, ecumenista chefe do Vaticano, observou: "Nós não estamos pescando na lagoa Anglicana." Não é o suficiente para o Times, para eles, este foi mais um caso do Vaticano convidando e atraindo inocentes, gente boa, avidamente tirando proveito sobre as atuais tensões internas no anglicanismo.
* Finalmente, o exemplo mais candente de todos veio de domingo com um trecho imoderado e indecente de Maureen Dowd nas páginas de opinião do Times. Em uma crítica que certamente nunca teria passado com os editores se tivesse criticado uma questão islâmica, judaica, ou afroamericana, ela cava fundo no manual nativista a usar todas as caricaturas anticatólicas possíveis, da Inquisição ao Holocausto, preservativos, a obsessão com o sexo, padres pedófilos, e opressão das mulheres, o tempo todo criticando o Papa Bento XVI por seus sapatos, o seu recrutamento forçado - junto com cada menino alemão da mesma idade - para o exército alemão, a sua abertura a ex-católicos, e suas boas-vindas recente aos anglicanos.
Não fosse suficiente, a questão que desencadeou seu espasmo - a visita atual às mulheres religiosas por representantes do Vaticano - é perfeitamente discutível, e dificilmente isenta para questionar legitimamente. Mas o seu preconceito, embora talvez apropriado para o jornal "Know-Nothing" [não sei de nada] de 1850, a Ameaça, não tem lugar em uma publicação de hoje.
Eu não quero sugerir que o anticatolicismo está confinado às páginas de New York Times. Infelizmente, abundantes exemplos podem ser encontrados em muitos locais diferentes. Não vou nem começar a tentar listar os muitos casos de anticatolicismo na chamada mídia de entretenimento, pois eles são tão comuns que às vezes parecem quase rotineiros e obrigatórios. Em outro lugar, na semana passada, o deputado Patrick Kennedy fez algumas observações extremamente imprecisas e inoportunas sobre os bispos católicos, como mencionado neste blog na segunda-feira. Além disso, o Legislativo de Estado de Nova York tem cobrado um imposto especial sobre a folha de pagamento para ajudar a Autoridade Metropolitana de Transportes a financiar o seu déficit. Esta legislação solicita que as escolas públicas sejam reembolsadas do custo do imposto; escolas católicas, e outras escolas privadas, não receberão o reembolso, custando milhares a cada uma das escolas - em alguns casos, dezenas de milhares - de dólares, dinheiro que o pais e as escolas dificilmente podem dar. (Nem pode a arquidiocese, que já garante às escolas $ 30 milhões por ano.) Não é uma questão de justiça básica para a escola e para as crianças e seus pais serem tratados todos da mesma forma?
A Igreja Católica não está acima de críticas. Nós, católicos, fazemos uma boa quantidade a nós mesmos. Congratulamo-nos e esperamos por elas. Tudo o que pedimos é que a crítica seja justa, racional e precisa, o que seria de esperar de qualquer um. A desconfiança e preconceito contra a Igreja é um passatempo nacional que deve ser "derramado fora" para o bem.
Acho que o minha própria experiência na história americana deve cuidado para não me prender a respiração.
Então, novamente, ontem foi a festa de São Judas, o santo padroeiro das causas impossíveis.
sábado, 3 de outubro de 2009
Ano Sacerdotal, um "puxão de orelhas"
A seguir, algumas citações livres, recolhidas de notícias da agência Zenit, que ilustram algumas das intenções do Ano Sacerdotal.
A eficácia deste ministério requer, portanto, que o sacerdote viva uma relação íntima com Deus, radicada em um amor profundo e em um conhecimento vivo das Sagradas Escrituras, "testemunho" escrito da Palavra divina.
Confessando-se é como se aprende a confessar. Dificilmente alguém pode ser confessor se não se confessa bem.
A causa do relaxamento do sacerdote é porque não presta atenção à Missa! Meu Deus, como é de lamentar um padre que celebra [a Missa] como se fizesse uma coisa ordinária!
Os sacerdotes não deveriam jamais resignar-se a ver os seus confessionários desertos, nem limitar-se a constatar o menosprezo dos fiéis por este sacramento.
Que a alegria seja o distintivo que se manifeste em toda a sua vida: quando pregam, quando celebram a Missa, quando trabalham no escritório e quando administram o sacramento da Reconciliação.
Muitas vezes os fiéis se aproximam com maior devoção e confiança quando nos veem serenos e alegres, quando transmitimos a paz que Cristo coloca em nossos corações.
O Santo Cura ensinava os seus paroquianos sobretudo com o testemunho da vida. Pelo seu exemplo, os fiéis aprendiam a rezar, detendo-se de bom grado diante do sacrário para uma visita a Jesus Eucaristia.
São os jovens desta nova geração que batem hoje à porta do Seminário e que necessitam encontrar formadores que sejam verdadeiros homens de Deus, sacerdotes totalmente dedicados à formação, que testemunhem o dom de si à Igreja, através do celibato e da vida austera, segundo o modelo do Cristo Bom Pastor. Assim esses jovens aprenderão a ser sensíveis ao encontro com o Senhor, na participação diária da Eucaristia, amando o silêncio e a oração, procurando, em primeiro lugar, a glória de Deus e a salvação das almas.
Os fiéis esperam somente uma coisa: que sejam especialistas na promoção do encontro do homem com Deus. Ao sacerdote não se pede para ser perito em economia, em construção ou em política. Dele espera-se que seja perito em vida espiritual.
Diante das tentações do relativismo ou do permissivismo, não é de fato necessário que o sacerdote conheça todas as atuais, mutáveis correntes de pensamento; o que os fiéis esperam dele é que seja testemunha da eterna sabedoria, contida na palavra revelada.
Cristo precisa de sacerdotes que sejam maduros, vigorosos, capazes de cultivar uma verdadeira paternidade espiritual. Para que isto aconteça, servem a honestidade consigo mesmos, a abertura ao diretor espiritual e a confiança na divina misericórdia.
O serviço pastoral “extraordinariamente fecundo” deste “anônimo pároco de uma longínqua aldeia do sul da França” é fruto de uma existência que foi “uma catequese viva”. Esta catequese “adquiria uma eficácia particularíssima quando as pessoas o viam celebrar a missa, deter-se em adoração diante do sacrário ou passar muitas horas no confessionário”.
Após o Concílio Vaticano II, “produziu-se aqui a impressão de que na missão dos sacerdotes, nesta nossa época, há algo mais urgente: alguns achavam que se deveria construir em primeiro lugar uma sociedade diferente”, ao invés de anunciar a Palavra e administrar os sacramentos.
“Rejeitai qualquer tentação de exibicionismo, carreirismo ou vaidade.
“Tendei para um estilo de vida caracterizado verdadeiramente pela caridade, castidade e humildade, à imitação de Cristo, o eterno Sumo Sacerdote, do qual vos deveis tornar imagem viva.
Os sacerdotes que não têm vocação para serem burocratas, só se tornam um deles quando são oprimidos e desmoralizados por uma diocese severa que possui “grandes iniciativas” e por alguns bispos que querem uma vida tranquila.
O sacerdote deve ser todo de Cristo e todo da Igreja, à qual é chamado a se dedicar com amor incondicional, como um marido fiel a sua esposa.
O sacerdote é um homem inteiro do Senhor, porque é o próprio Deus quem o chama e o constitui em seu serviço apostólico. E precisamente sendo inteiro do Senhor, é inteiro dos homens, para os homens.
Eu mesmo [Bento XVI] guardo ainda no coração a recordação do primeiro pároco junto de quem exerci o meu ministério de jovem sacerdote: deixou-me o exemplo de uma dedicação sem reservas ao próprio serviço sacerdotal, a ponto de encontrar a morte durante o próprio ato de levar o viático a um doente grave.
Logo que [João Maria Vianney] chegou, escolheu a igreja por sua habitação. Entrava na igreja antes da aurora e não saía de lá senão à tardinha depois do Angelus. Quando precisavam dele, deviam procurá-lo lá.
Com as longas permanências na igreja junto do sacrário, fez com que os fiéis começassem a imitá-lo, indo até lá visitar Jesus, e ao mesmo tempo estivessem seguros de que lá encontrariam o seu pároco, disponível para os ouvir e perdoar. Em seguida, a multidão crescente dos penitentes, provenientes de toda a França, haveria de o reter no confessionário até 16 horas por dia.
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
O anúncio da verdade
A Carta Encíclica Caritas in Veritate[1] do papa Bento XVI, publicada a 29 de junho de 2009, trata do desenvolvimento humano integral e coloca a verdade como indispensável à caridade, contra todo relativismo. O atual cenário de crise mundial e a necessidade de novas formas de relação teve muito peso na elaboração da carta. Pretendo, nesta resenha, de forma sintética e limitada, abordar o tema da verdade como essencial ao anúncio cristão.
“Defender a verdade, propô-la com humildade e convicção e testemunhá-la na vida são formas exigentes e imprescindíveis de caridade. Esta, de fato, « rejubila com a verdade » (1 Cor 13, 6)”[2]. O anúncio de Jesus Cristo, isto é, da Verdade (cf. Jo 14, 6), é caminho e força para o desenvolvimento humano integral.
Caridade (amor) sem verdade é carente de sentido e se torna sentimentalismo[3].
“No atual contexto social e cultural, em que aparece generalizada a tendência de relativizar a verdade, viver a caridade na verdade leva a compreender que a adesão aos valores do cristianismo é um elemento útil e mesmo indispensável para a construção duma boa sociedade e dum verdadeiro desenvolvimento humano integral”[4].
Aqui se está afirmando a validade universal e a indispensabilidade dos “valores do cristianismo”, não necessariamente a pertença ao cristianismo. Como a verdade é um dos eixos principais da carta, de modo nenhum o papa poderia negar – e não o fez – o caráter de verdade do cristianismo e a universalidade salvífica de Jesus Cristo[5].
A CARIDADE, MANIFESTAÇÃO DA VERDADE
“A verdade há-de ser procurada, encontrada e expressa na « economia » da caridade”[6]. Esta contribui para “acreditar a verdade, mostrando o seu poder de autenticação e persuasão na vida social concreta”[7]. A caridade é a prática da verdade.
Destinatários do amor (graça) de Deus (Trindade), “os homens são constituídos sujeitos de caridade, chamados a fazerem-se eles mesmos instrumentos da graça, para difundir a caridade de Deus e tecer redes de caridade”[8].
O mundo em crescente globalização e, ao mesmo tempo, tendente ao relativismo, corre o risco de que não faça corresponder a todos uma “ética das consciências e das inteligências”[9]. A caridade guiada pela verdade exige que haja “critérios orientadores da ação moral”[10], tais como são a justiça e o bem comum[11].
Na linha do Concílio Vaticano II e de Paulo VI na Populorum Progressio, Bento XVI reafirma que o serviço da caridade da Igreja “tende a promover o desenvolvimento integral do homem”, entendido quanto “à totalidade da pessoa em todas as suas dimensões”, sem que se exclua “a perspectiva duma vida eterna”[12].
A caridade é meio de evangelização. “O testemunho da caridade de Cristo através de obras de justiça, paz e desenvolvimento faz parte da evangelização”[13].
CENTRALIDADE DO HOMEM PARA O VERDADEIRO DESENVOLVIMENTO
O progresso tem um aspecto transcendente que é o da vocação: “cada homem é chamado a desenvolver-se”[14]. O caráter de verdade da caridade impõe que cada ação vise “promover todos os homens e o homem todo”[15], segundo “o ideal cristão de uma única família dos povos, solidária na fraternidade comum”[16]:
“O Evangelho é elemento fundamental do desenvolvimento, porque lá Cristo, com « a própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo » (Gaudium et Spes, 22). Instruída pelo seu Senhor, a Igreja perscruta os sinais dos tempos e interpreta-os, oferecendo ao mundo « o que possui como próprio: uma visão global do homem e da humanidade » (Populorum Progressio, 13)”.
A negação do caráter transcendente reduz o homem “à categoria de meio para o desenvolvimento”. Como argumento a favor da transcendência pode-se aduzir que “as causas do subdesenvolvimento não são primariamente de ordem material”. São elas:
“Em primeiro lugar, na vontade, que muitas vezes descuida os deveres da solidariedade. Em segundo, no pensamento, que nem sempre sabe orientar convenientemente o querer; por isso, para a prossecução do desenvolvimento, servem « pensadores capazes de reflexão profunda, em busca de um humanismo novo, que permita ao homem moderno o encontro de si mesmo »”[17].
Servem de instrumentos ou meios (não como fins em si mesmos) para o desenvolvimento integral e o progresso do homem estruturas econômicas e instituições[18], o lucro sustentável orientado ao bem comum[19], os poderes públicos[20], o mercado[21], a empresa[22], a técnica[23].
“Tudo quanto existe sobre a terra deve ser ordenado em função do homem, como seu centro e seu termo: neste ponto existe um acordo quase geral entre crentes e não crentes”[24].
CONCLUSÃO
“O homem não é capaz de gerir sozinho o próprio progresso”[25] porque a verdade lhe é superior, é dom de Deus, assim como a caridade. A Igreja “tem uma missão ao serviço da verdade”[26] que é irrenunciável. “A verdade une os espíritos entre si e fá-los pensar em uníssono”[27], de modo que é preciso que haja uma busca comum da verdade.
É inerente ao cristão o anúncio inequívoco da verdade que é Cristo. Anúncio este feito com a caridade que tem sua fonte em Deus.
[1] BENTO XVI. Carta Encíclica Caritas in Veritate. Sobre o desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade. Roma, 2009. Disponível em: http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20090629_caritas-in-veritate_po.html. Acesso em 03 de setembro de 2009.
[2] Ibid., 1.
[3] Ibid., 3.
[4] Ibid., 4.
[5] Cf. CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Declaração Dominus Iesus. Sobre a unicidade e a universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja. Roma, 2000. Disponível em: http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20000806_dominus-iesus_po.html. Acesso em 03 de setembro de 2009.
[6] BENTO XVI. op. cit., 2
[7] Ibid., 2.
[8] Ibid., 5.
[9] Ibid., 9.
[10] Ibid., 6.
[11] Ibid., 6-7.
[12] Ibid., 11.
[13] Ibid., 13.
[14] Ibid., 16.
[15] PAULO VI, Carta encíclica Populorum progressio, 15 apud BENTO XVI. Op.cit., 18.
[16] Ibid., 13.
[17] Ibid., 19, citando PAULO VI, Op. cit., 20.
[18] Ibid., 17.
[19] Ibid., 21.
[20] Ibid., 24.
[21] Ibid., 35-39.
[22] Ibid., 40-41.
[23] Ibid., 68-77.
[24] CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II, Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 12. apud BENTO XVI, Op. cit., 57.
[25] BENTO XVI, Op. cit., 78.
[26] Ibid., 9.
[27] Ibid., 54.


