quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Jesus: Parábola de Deus - Recensão

TAVARES, Sinivaldo S. Jesus: Parábola de Deus. Cristologia narrativa. Petrópolis: Vozes, 2007. 91p.


O autor é frade franciscano, doutor em teologia sistemática. A obra procura aprofundar os gestos e palavras do Jesus concreto e suscitar o seguimento à sua mensagem de coerência entre palavra e ação.
O prólogo, que prepara terreno para os cinco capítulos do livro, chama atenção para um problema atual que também foi dos contemporâneos de Jesus: separar divino e humano. Estas duas realidades não se opõe mas se potencializam. Isso é dito numa expressão carente de maiores esclarecimentos: “só é realmente divino o que for também profundamente humano” (p. 9). O que é ser humano? O mesmo se dá com as seguintes expressões: “O próprio Jesus se nos revelou como alguém tão humano que só podia ser divino. [...] [divino e humano] são na verdade, reciprocamente implicados” (p. 10).
A aproximação a Jesus é feita, ao longo dos capítulos, pelas relações constitutivas de sua vida: a referência ao Reino e a íntima relação com o Pai.
1. Jesus anuncia e torna presente o Reino de Deus. Este é o diferencial do ministério de Jesus. O Reino como expressão do amor de Deus, proximidade e graça oferecida a todos. Ao contrário do Batista, que no deserto esperava que viessem os arrependidos para serem batizados, Jesus é quem vai ao encontro e anuncia a salvação. A conversão já não é condição para a salvação mas resposta.
A intimidade de Jesus com Deus, experimentado como Abbá, é sua característica e transparece na sua atitude de autoridade sobre a Lei e tradições, no perdoar pecados, na consciência de ser o último dos profetas, na fidelidade e doação de vida.
No subtítulo “No mundo, a presença gratuita e interpeladora do Pai” se justifica o título do livro. A parábola não é um recurso meramente didático, visto que “evoca mais do que define. Acena mais do que delimita” (p. 22). Através de parábolas, Jesus convida a olhar as coisas e perceber a presença reveladora de Deus. Nas situações mais insignificantes e rotineiras Ele se revela em sua dimensão mistérica.
Jesus, consciente de sua missão, testemunha o amor gratuito do Pai não só por palavras mas por atitude. A escolha da Galiléia (lugar dos pobres), a escolha dos apóstolos (o Mestre escolhe os discípulos), o narrar parábolas (tirar Deus do formalismo) demonstram a coerência com a própria pregação de proximidade e intimidade com o Pai e com os irmãos.
Jesus dialoga com todos, indistintamente. Leva as pessoas a falarem de si e lhes dá direito à expressão. Tem ternura e cuidado especial para com os excluídos, denunciando a injustiça. Exclui o discurso de méritos, recompensa e retribuição na relação com Deus, revelando o amor misericordioso e gratuito.
2. Paixão e morte de Jesus. Resultado da rejeição de sua pessoa. Tentativa de desacreditar, banir sua pregação, que vai de encontro aos interesses e privilégios de alguns.
Jesus acolhe sua própria morte com extrema liberdade, como coroação da vida. Acolhe a oposição e a incompreensão como ocasião de se aprofundar na fidelidade ao Pai e amadurecer seu projeto. Essa atitude é desconcertante: não se rebela, revolta ou resigna. Ele mesmo se entrega. Mais uma vez é sinal de sua coerência de vida, entrega generosa e desinteressada.
Nem Jesus nem o Pai desejam diretamente a morte. Esta é aceita como gesto de fidelidade e coerência. As palavras de Jesus no Getsêmani (e não no Gólgota, segundo equívoco do autor, p. 45) expressam essa fidelidade e solidariedade extremas: “Abbá, Pai, tudo te é possível: afasta de mim este cálice, mas não seja o que eu quero senão o que tu queres”.
3. Ressurreição de Jesus e efusão do Espírito Santo. “A ressurreição de Jesus não deve ser interpretada como um fato acontecido depois da sua morte, numa espécie de sucessão cronológica” (p. 49). A ressurreição testemunha a sua morte. O Ressuscitado é o mesmo Crucificado. Os relatos das aparições sublinham essa identidade.
Ressuscitando Jesus, o Pai garante a verdade de sua mensagem. A ressurreição é a plenificação da existência de Jesus e só pôde ser assim compreendida com os anos de convivência e relação de Jesus. Após a ressurreição nova luz é lançada nos acontecimentos do passado.
Com a Ressurreição inicia-se a era escatológica. O Pai garante um final bom para a humanidade.
Uma volta à hora da cruz para falar do Corpo de Cristo: o Espírito Santo, presente nessa hora do cumprimento da missão, é entregue à Igreja, desvelando todas as virtualidades e potencialidades da realidade humana e cósmica.
O Cristo cósmico é aquele Primogênito pelo qual todas as coisas foram criadas. Como Ressuscitado é também recapitulador de toda criatura, sua realização máxima.
4. Jesus Cristo e a comunhão trinitária. Em todo o livro se faz referência à ação da Trindade. Na vida de Jesus a presença explícita é na morte, na aparente ausência.
As narrações da paixão são feitas em torno das “entregas”: a que o Filho faz de si; a que o Pai faz do seu Unigênito; a que o Pai e o Filho fazem do Espírito Santo à humanidade.
Os eventos significativos da pessoa e da missão de Jesus são narrados com perspectiva trinitária porque reinterpretados segundo os acontecimentos pascais, particularmente: anunciação, batismo, tentações e transfiguração. Todos estes relatos aludem à efusão do Espírito Santo como inauguração dos tempos messiânicos que culminará com a efusão sobre a comunidade.
5. Quem é, afinal, Jesus Cristo? “Quem as pessoas dizem que eu sou?” – Todo conhecimento acerca de Jesus nos vem através de outros, da tradição eclesial. Os evangelhos não tratam primariamente da pessoa histórica de Jesus mas da experiência das primeiras comunidades com Ele, que transformou radicalmentesuas vidas.
“E vós, quem dizeis que eu sou?” – É tarefa da cristologia purificar as expressões de fé da comunidade eclesial atual, confrontando com o testemunho da Escritura. A cristologia procede desconstruindo imagens e concepções da nossa experiência de fé e construindo o rosto fiel de Jesus segundo as primeiras comunidades e a tradição eclesial. Há o risco (“o riso”, leia-se “o risco”. p. 75) de criar-se um Cristo à nossa imagem e semelhança, submetendo-o aos nossos caprichos e interesses.
É legítima a pluralidade de concepções e imagens de Jesus Cristo, pois exprimem a diversidade de experiências de fé. Mas que se submetam ao crivo da Escritura.
“A solidariedade entre história e fé”. Neste subtítulo se justifica o subtítulo da obra: Cristologia narrativa. A profissão de fé das primeiras comunidades testemunha uma estrutura narrativa. O anúncio de que, ressuscitando Jesus dentre os mortos, Deus levou à máxima perfeição seus desígnios, constitui uma interpretação de fé de um evento histórico. O anúncio pascal é o objetivo do Segundo Testamento e é o que suscita a história das comunidades primitivas e atuais.
“A relação entre Jesus e nós” só é possível aprofundando-se as relações constitutivas de Jesus. Ele que transcendeu seus condicionamentos biográficos e sociais porque viveu intensamente e em plenitude sua existência ordinária e circunstanciada. Para a cristologia, o método menos inadequado é o da escuta: o que nos é dito ao nos relacionarmos com Ele.

Apreciação


O livro segue do início ao fim o método proposto de captar a mensagem de fé do evento histórico Jesus. Não se perde em especulações de “como” ou análises descritivas. Leva o leitor a captar a mensagem perene de Jesus Cristo, que vivendo no tempo, soube transcendê-lo.

por Márcio Carvalho da Silva

Deus de volta ao centro: um novo movimento litúrgico e a reforma de Bento XVI

Curso online: "Passos para uma reforma litúrgica local": www.cursoscatolicos.com.br
Material apresentado na XXIV Semana de Teologia do ITASA/JF, em 20/09/2011.
Deus de volta ao centro: um novo movimento litúrgico e a reforma de Bento XVI

Clique aqui para download direto do ppt

Vídeo apresentado: http://www.youtube.com/watch?v=3gwL-2Pm7uU&feature=share

DEUS DE VOLTA AO CENTRO:
UM NOVO MOVIMENTO LITÚRGICO E A REFORMA DE BENTO XVI

            Márcio Carvalho da Silva*

Estamos acostumados a ouvir das pesquisas que o número dos fiéis católicos ora diminui, ora aumenta e que varia conforme as regiões e culturas. Sabemos também que o número real de católicos é impossível de se determinar quando se leva em conta a participação na vida da Igreja. Se o preceito de participar da Missa aos Domingos fosse critério de catolicidade, ficaríamos ainda mais assustados com os números.
Por que a grande maioria dos católicos não participa da Missa como deveria?
Uma resposta simples está na boca do povo: a Missa é chata e desinteressante. Para muitos, ela é sem sentido. Alguns destes católicos de boa vontade se esforçam em procurar uma boa paróquia, um sacerdote que celebre bonito, uma celebração em que se sintam bem.
Diante desse quadro, de quem é a culpa?
O leitor melhor formado, numa resposta apressada, poderia dizer que a culpa é desse católico que ainda não entendeu o sentido da liturgia. Mas não estaria ele procurando entender, e não encontrando quem ensinasse? Mais uma vez, o apressado diria: o ‘povo’ não participa dos encontros de formação, das catequeses litúrgicas, não corre atrás. Ora, a melhor catequese é a liturgia bem celebrada. Ninguém vai procurar aprender aquilo que lhe parece desinteressante. A instrução é posterior à iniciação nos mistérios, como nos ensina a mistagogia dos Santos Padres. A grande confusão na cabeça dos fiéis é reflexo da grande confusão litúrgica e doutrinária que eles presenciam.
Se a culpa é da própria forma com que são conduzidas as celebrações, qual é o remédio?
A grande segurança do católico é que ele faz parte da Igreja de Cristo, que é una, santa, católica e apostólica. Essas notas características da Igreja estão presentes também na liturgia. A celebração do mistério de Deus é regulada pela autoridade da Igreja, que vem de Cristo pelos Apóstolos, que reflete por todo o mundo a unidade da fé que professamos.
Não parece haver caminho mais seguro e acertado para remediar a liturgia: a observância das normas, o esforço por celebrar bela e dignamente os sagrados mistérios. A liturgia é o rosto da Igreja, sua fonte de vida, seu vigor. Salvando a liturgia, a Igreja terá forças para salvar o mundo.

                

               1. Reforma litúrgica?


A Igreja é, desde sempre, sujeita a reformas[1]. Imutável na sua essência, que é o Cristo, a Igreja procura sempre a melhor forma de continuar sua missão e comunicar a salvação aos homens de seu tempo. Em termos de liturgia, a última grande reforma ocorreu no Concílio Vaticano II (1962-1965).
Acontece que nem tudo acontece como previsto ou pedido no papel. O Concílio sofreu de uma má aplicação, não só na liturgia, mas principalmente neste campo. O principal motivo apontado é um falso conceito de liberdade e a ignorância. Formou-se uma mentalidade de que a adaptação é mais importante que a norma, chegando a suprimi-la.
A relativização da norma faz com que ela perca seu sentido, que é manter a unidade da Igreja e garantir o direito de todo fiel à liturgia. Assim se expressou a esse respeito o Santo Padre Bento XVI: “O primeiro modo de favorecer a participação do povo de Deus no rito sagrado é a condigna celebração do mesmo; a arte da celebração é a melhor condição para a participação ativa. Aquela resulta da fiel obediência às normas litúrgicas na sua integridade, pois é precisamente este modo de celebrar que, há dois mil anos, garante a vida de fé de todos os crentes, chamados a viver a celebração enquanto povo de Deus, sacerdócio real, nação santa (cf. 1 Pd 2,4-5.9)”[2].
Um dos pontos fortes do pontificado do Papa Bento XVI é promover o que vem sendo chamado de “reforma da reforma”: retomar o caminho do Concílio Vaticano II e purificar a Igreja e a liturgia das interpretações equivocadas. Esse trabalho já desempenhava antes de chegar ao trono de Pedro, quando ainda era Cardeal Ratzinger: no livro Introdução ao espírito da liturgia, expressou o desejo de que na Igreja aconteça um novo movimento litúrgico, que, de fato, vem tomando forma nos últimos anos.
Bento XVI tem provocado esse novo movimento litúrgico e realizando a reforma da reforma não a toque de decretos, como poderia fazer, mas através do trabalho prudente e do exemplo. Aliás, trabalho prudente foi um dos aspectos pedidos pela Constituição Sacrosanctum Concilium, negligenciado na prática.
A mudança, a reforma, não acontece da noite para o dia. Rumo aos cinquenta anos do Concílio, não o vimos plenamente aplicado. Não será também tão rápida a correção dos abusos e a criação de uma nova mentalidade litúrgica.

      

              2. Passos para uma reforma litúrgica local


As sugestões que aqui são dadas partem do princípio já mencionado que somente a observância das normas litúrgicas poderá manter sua unidade e purificá-la de todo elemento estranho e nocivo. Não propomos nada além do que já é previsto nas normas e rubricas. A novidade é que, na maioria das vezes, estas normas são desconhecidas por aqueles principais responsáveis pela celebração. Muitos celebram segundo “o costume”, sem mesmo olhar os livros litúrgicos. Outros confiam demais em subsídios demasiadamente criativos.
Não precisamos dizer que os protagonistas dessa reforma serão principalmente os que têm mais responsabilidade sobre a liturgia. Como a reforma é prática e será adotada localmente, cabe ao sacerdote que preside a celebração a principal colaboração. Em conjunto estarão os ministros mais próximos, sejam sacerdotes concelebrantes, diáconos, acólitos e outros ministros leigos. Todos estes deverão aderir ao projeto de reforma litúrgica e agir em unidade.

 

                   2.1. Eliminar os erros imediatamente


Esse ponto é urgente e vai depender da situação de cada comunidade. Não será possível abranger todos os erros e abusos graves que necessitam correção imediata. Para identificar esses erros será preciso que se analise minuciosamente, no caso da Missa, a Instrução Geral do Missal Romano (IGMR), suas rubricas e a Instrução Redemptionis Sacramentum (RS), confrontando com a prática litúrgica local.
Algumas práticas particularmente graves podem passar despercebidas a um olhar menos crítico, que pode não ver a questão de fundo da norma. Indicamos alguns erros comuns:
        
2.1.1. O modo da distribuição da Sagrada Comunhão

Antes da norma, o sentido: a Eucaristia é dom e ninguém a toma por si mesmo. É o próprio Cristo que se dá através da Igreja. Na liturgia eucarística, somente o sacerdote age in persona Christi, na pessoa/função de Cristo.
É comum, porém, vermos o sacerdote presidente negligenciar as normas do Missal no que diz respeito à distribuição da Comunhão aos ministros leigos que servem ao altar, particularmente ministros extraordinários e demais leigos quando comungam sob as duas espécies. Isso deixa a impressão que a Sagrada Comunhão é uma comida qualquer, a qual todos têm livre direito e acesso. E se há diferenciação no tratamento entre leigos ministros e não-ministros, cria-se uma falsa valorização/desvalorização entre uns e outros.

2.1.2. Quem está à frente dá o exemplo

Sabemos que há muitos gestos e posturas a se observar na liturgia, todos com muito significado. A assembleia às vezes se acostumou com práticas erradas ou se confunde diante de tantas divergências de informação. Diante disso, é inadmissível que aqueles que estão no altar como concelebrantes, diáconos ou acólitos, ajam em desacordo com o previsto nos ritos no tocante aos gestos e posições. O fiel que está na assembleia, quando em dúvida, vai procurar uma referência em quem está à frente, pois supõe-se que este saiba o que está fazendo.
Se não é possível de imediato corrigir a prática de toda a assembleia, é possível fazer com que os ministros do altar ajam corretamente e deem o exemplo à comunidade.

2.1.3. Eliminar todo elemento não-litúrgico

Alguns elementos que entraram nas liturgias das comunidades parecem inofensivos e outros até agradam a alguns. Purificar a liturgia pode levar tempo, como já dissemos. Muitas práticas já estão tão entranhadas nas pessoas que a sua eliminação poderia causar, no mínimo, estranhamento. Outras, porém, podem ser eliminadas tão facilmente que poucos notariam alguma diferença. Mas, com certeza, a liturgia muito ganharia em sacralidade.
Eis exemplos de algumas práticas que podem ser eliminadas de imediato:
·  Entradas de pessoas e 'coisas';
·  O cantor ou coral cantar o sinal da cruz;
·  Cantar outras músicas no momento do Gloria in excelsis;
·  Cantar no rito da paz.

 

                   2.2. Melhorar pacientemente


Passamos agora àquelas sugestões que podem requerer mais tempo e paciência para surtirem o efeito da reforma, de valorizar a liturgia e celebrá-la dignamente.

2.2.1. Sem comentários

O famoso “comentarista” ou animador é uma figura que já deveria ter desaparecido de nossas liturgias. Sua função já perdeu muito de sua razão de ser.
A Igreja celebrou durante muitos séculos segundo uma única forma, particularmente sob o Missal de São Pio V, do século XVI até o Concílio Vaticano II. Com a reforma, foi elaborado um novo missal em 1970 que ficou conhecido como Missal de Paulo VI, ou “Nova Missa”. Neste missal, que é o atual, previa-se a necessidade de explicar ao povo algumas mudanças em relação à forma de celebrar anterior. Isso seria feito pelo próprio sacerdote ou por outra pessoa. A Instrução Geral do Missal Romano o chama de “comentador” no número 105b: “Incumbido de fazer aos fiéis, se for oportuno, breves explicações e admonições, a fim de os introduzir na celebração e os dispor a compreendê-la melhor". E adverte: "As admonições do comentador devem ser cuidadosamente preparadas e muito sóbrias. No desempenho da sua função, o comentador deve colocar-se em lugar adequado, à frente dos fiéis, mas não no ambão”.
Acontece que há mais de quarenta anos celebramos o novo rito da Missa e todos já estamos acostumados à sua estrutura. A prática mostra que as pessoas se cansam facilmente e prefeririam que não houvessem os tais comentários.

2.2.2. Abaixar o volume

Com os recursos técnicos de sonorização se popularizando justamente no período do Concílio, parece que criou-se uma necessidade de se escutar tudo em alto e bom som. A qualidade do som que é ouvido pela assembleia é comumente medida pela intensidade (volume) do som que sai dos autofalantes.
Os especialistas garantem, porém, que o som alto não garante a boa compreensão e não favorece a atenção, além de ser prejudicial aos ouvidos. O som alto causa uma espécie de estupor nas pessoas, sensação parecida com a que se tem nos shows de música popular. E não é este tipo de sensação que se deve ter na liturgia. A voz baixa estimula a atenção e a contemplação.

2.2.3. Despoluir o visual

É certo que nem todos os templos são tão belos arquitetonicamente como deveriam. Nestes e mesmo nos belos templos houve uma tendência em querer 'melhorar' o ambiente com flores, plantas, enfeites, cartazes e símbolos que são trocados 'de acordo com a celebração'.
Se há necessidade de comunicação visual, do tipo lembretes ou notícias, estes podem ser movidos para um lugar mais adequado, fora do espaço celebrativo. Sabemos que não é possível eliminar totalmente esse tipo de comunicação e a solução não é fazer tudo em forma de avisos no final da celebração. Geraria outro tipo de ruído, dispersando as pessoas do mistério que acabaram de celebrar. Os avisos devem reduzir-se a um mínimo necessário.

2.2.4. Investir na Beleza

A liturgia deve refletir a Beleza que é Deus. A perda do sentido da beleza em nossos tempos está intimamente relacionada com a perda do sentido do sagrado. Tanto a arte quanto a religião apontam para uma transcendência, algo que está além do nosso mundo imperfeito. Para o cristão, o Transcendente é Deus.
Muito da crise na liturgia foi causada por essa perda do sentido da beleza. Nossas celebrações não passam muito do que vivemos no cotidiano: um pouco de música popular, de convívio social, da estética comum do dia-a-dia.
Alguns outros pontos podem ser melhorados com um pouco mais de investimento: as alfaias, vasos sagrados e as vestes. Isso refletirá na percepção das pessoas de que estão num lugar especial, que o que acontece não é algo comum, mas reflexo das realidades celestes. Favorecerá a oração, a contemplação e a piedade.

2.2.5. Silêncio!

A reforma litúrgica do Vaticano II tirou a liturgia de um silêncio extremo, passivo, mas chegou-se ao extremo oposto: confundir participação ativa com ficar falando e cantando o tempo todo.
A liturgia da Missa prevê momentos de silêncio e as normas falam de sua importância: “Também se deve guardar, nos momentos próprios, o silêncio sagrado, como parte da celebração. A natureza deste silêncio depende do momento em que ele é observado no decurso da celebração. Assim, no ato penitencial e a seguir ao convite à oração, o silêncio destina-se ao recolhimento interior; a seguir às leituras ou à homilia, é para uma breve meditação sobre o que se ouviu; depois da Comunhão, favorece a oração interior de louvor e ação de graças. Antes da própria celebração é louvável observar o silêncio na igreja, na sacristia e nos lugares que lhes ficam mais próximos, para que todos se preparem para celebrar devota e dignamente os ritos sagrados.”[3]

2.2.6. Celebrar a Missa, não um tema ou intenção

A CNBB já advertiu sabiamente sobre isso no Diretório da Liturgia: “A comunidade deve celebrar a sua vida na liturgia [...]. Mas deve celebrá-la à luz de Jesus Cristo ressuscitado, vivo, presente e atuante na comunidade, e não à luz de um tema, de uma ideia [...]. Deve celebrar a sua vida, sim, com os problemas que lhe tocam mais de perto; mas à luz da palavra viva, como o único tema... e quando não se penetra profundamente na palavra de Deus, na docilidade do Espírito, facilmente pode-se cair na moralização. [...] Assim, o domingo celebra realmente a vida da comunidade, nos seus diversos coloridos, mergulhada na única vida do Ressuscitado que lhe dá vida”.
Do mesmo modo, as intenções particulares não podem se sobrepor à celebração do Mistério de Cristo. Como a prática das intenções particulares é bastante difundida, o melhor é que se diga antes do início da Missa, por um ministro que não seja o presidente. Importante que se lembre de que não é o fato de uma intenção ser falada ao microfone que faz com que tenha maior eficácia.
A Missa não pode virar palco para promover uma ideia, um evento, uma pessoa. É desconfortante participar de uma Missa em que pouco se fala de Deus e muito de uma pessoa ou outras coisas. A conscientização dos fiéis do verdadeiro sentido da Missa eliminará aos poucos as missas temáticas e as intenções particulares.

2.2.7. Melhorar o canto litúrgico

Chegamos a um dos pontos mais trabalhosos de uma reforma litúrgica local. Sabemos da escassez de músicos e de sua má formação litúrgica, além de suas dificuldades de tempo e recursos para dedicar à Igreja. Todo cuidado e prudência será pouco ao se tratar desse aspecto essencial da liturgia.
A IGMR é mais clara e prática no número 41: “Em igualdade de circunstâncias, dê-se a primazia ao canto gregoriano, como canto próprio da Liturgia romana. De modo nenhum se devem excluir outros gêneros de música sacra, principalmente a polifonia, desde que correspondam ao espírito da ação litúrgica e favoreçam a participação de todos os fiéis. Dado que hoje é cada vez mais frequente o encontro de fiéis de diferentes nacionalidades, convêm que eles saibam cantar em latim pelo menos algumas partes do Ordinário da Missa, sobretudo o símbolo da fé e a oração dominical, nas suas melodias mais fáceis.” Eis o ideal que se deveria buscar: canto gregoriano e polifonia.
Para uma reforma litúrgica prudente e gradual como estamos propondo, deve-se primeiro coibir os abusos já existentes, como cantos não-litúrgicos na sua letra, melodias e ritmos que lembrem o profano, excesso de instrumentos, cantos em momentos inadequados. Os responsáveis pela celebração, naturalmente os sacerdotes, devem ter o cuidado de revisar o repertório de seus grupos de cantores e incentivar sua melhoria.

2.2.8. Presbitério livre

A IGMR tem algumas normas para a disposição do lugar sagrado que merecem nossa atenção. Já dissemos que a poluição visual atrapalha a contemplação do mistério celebrado. O grande número de ministros também pode ter o mesmo efeito negativo.
A disposição dos ministros no presbitério deve favorecer o exercício de cada função. Não é mera ocupação de lugares. Pensando assim, logo percebemos como nossos presbitérios estão cheios de gente “à toa”.
O exemplo mais comum disso é a presença dos ministros extraordinários da Comunhão. O abuso neste campo é objeto de muitas normas, instruções e advertências, por exemplo, a Instrução Inestimabile Donum, da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos.
O ministério extraordinário não pode se tornar ordinário, isto é, comum, corriqueiro, programado. Sua função é distribuir a Sagrada Comunhão quando necessário, não sempre. E se esta é sua função, não faz sentido eles ocuparem o presbitério ou a procissão de entrada, pois só exercerão sua função, se necessário, na distribuição da Sagrada Comunhão.
Acontece que este ministério foi sendo usado erroneamente como uma forma de promover a participação dos leigos. E muitos destes apreciam certo status do ministério, principalmente quando ocupam posições destacadas no presbitério. “Para não gerar confusão, devem-se evitar e remover algumas práticas que há algum tempo foram introduzidas em algumas Igrejas particulares, como por exemplo: — o comungar pelas próprias mãos, como se fossem concelebrantes; [...] — o uso habitual de ministros extraordinários nas Santas Missas, estendendo arbitrariamente o conceito de ‘numerosa participação.’”[4]

2.2.9. Favorecer a piedade Eucarística

Todos que creem com a Igreja que a Eucaristia é a presença real e substancial de Cristo concordam que devemos receber o Corpo e o Sangue de Cristo com reverência e piedade. Esta atitude, com certeza, deve ser mais interior que exterior. Mas como em todo sacramento, o gesto exterior deve expressar a realidade transcendente. Por isso a Igreja emana normas e orientações em matéria de culto e dos sacramentos.
O fiel tem opções que devem ser respeitadas quanto ao modo de comungar, de acordo com sua piedade e consciência. É abuso grave exigir que todos obedeçam um mesmo modo de receber a Comunhão.
A Comunhão de joelhos e na língua é a forma tradicional de receber a Sagrada Eucaristia, pois é a que mais demonstra reverência à Eucaristia. Também é costume de muitos séculos o uso da patena, segurada por um acólito na distribuição da Comunhão. “A bandeja para a Comunhão dos fiéis se deve manter, para evitar o perigo de que caia a hóstia sagrada ou algum fragmento”.[5] Este é o modo adotado pelo Papa Bento XVI: comunhão de joelhos, na boca, com uso de patena. O que é melhor deve ser incentivado.

2.2.10. Incentivar a Reconciliação

Devemos recordar, neste ponto, que liturgia não diz respeito só à Santa Missa, mas a toda celebração sacramental da Igreja. Nesse sentido, recomendamos aqui uma revalorização do Sacramento da Reconciliação que muito bem espiritual fará aos fiéis e repercutirá, inclusive, na participação na Missa.
Algumas normas do Ritual da Penitência são quase sempre negligenciadas pela maioria das paróquias. E isso está na raiz da crise com que passa também esse sacramento.
No que diz respeito ao lugar da celebração, por exemplo: “O sacramento da Penitência celebra-se habitualmente, a não ser por causa justa, na igreja ou oratório. No que respeita ao local da confissão, a Conferência Episcopal estabeleça normas, com a reserva porém de que haja sempre, em lugar patente, locais de confissões munidos de grades fixas entre o penitente e o confessor, e que os fiéis que assim o desejem possam utilizar livremente. Não se ouçam confissões fora do local da confissão, a não ser por causa justa.”[6]
Não é de se estranhar que a retirada dos confessionários ocasionou queda no número de confissões. Também, por tabela, os padres ficaram menos disponíveis para ouvir as confissões, extinguindo-se, em muitos lugares, os amplos horários em que o padre ficava na igreja à disposição dos penitentes.
A simples presença do confessionário já seria, por si, um sinal de que é preciso se reconciliar com Deus e com a Igreja. Melhor ainda se um sacerdote estiver lá, disposto a ouvir e oferecer o perdão sacramental. E que não desanime nos primeiros dias, semanas ou meses. A comunidade pode demorar a aceitar o convite ao confessionário, mas o retorno virá, com certeza.

2.2.11. Acertar a homilia

Uma homilia ruim está entre os fatores que mais desagradam os fiéis, chegando a causar o abandono da Igreja. E como a homilia é tarefa exclusiva do ministro ordenado, ninguém poderá fazer mais pela melhoria das homilias do que ele próprio.
O Santo Padre relembrou, mais de uma vez, a urgência de se melhorar as homilias. O Papa sente, com a inteligência que lhe é própria, que o povo que acorre às celebrações litúrgicas tem fome do alimento sólido da Palavra de Deus. E ele dá algumas indicações muito práticas na sua Exortação Verbum Domini: “Devem-se evitar tanto homilias genéricas e abstratas que ocultam a simplicidade da Palavra de Deus, como inúteis divagações que ameaçam atrair a atenção mais para o pregador do que para o coração da mensagem evangélica. Deve resultar claramente aos fiéis que aquilo que o pregador tem a peito é mostrar Cristo, que deve estar no centro de cada homilia. Por isso, é preciso que os pregadores tenham familiaridade e contato assíduo com o texto sagrado; preparem-se para a homilia na meditação e na oração, a fim de pregarem com convicção e paixão.”[7] E citando São Jerônimo, lembra: “Que as tuas ações não desmintam as tuas palavras, para que não aconteça que, quando tu pregares na igreja, alguém comente no seu íntimo: “Então porque é que tu não ages assim?” (…) No sacerdote de Cristo, devem estar de acordo a mente e a palavra”. [8]
O fiel católico de hoje em dia tem preocupações e indagações que não são as mesmas de algum tempo atrás. Aliás, as preocupações e as mentalidades mudam a cada dia. Os pregadores devem reconhecer e se adaptar a isso. Um modo de atingir essa mentalidade é justamente a contrapor com a solidez da fé, em unidade com a Tradição viva da Igreja. Aquele que vai à Igreja não está buscando combatê-la, mas entendê-la. As dúvidas de fé vêm quando não se ouve a fé viva da Igreja, mas ideias contraditórias disfarçadas de erudição.

2.2.12. Voltar Cristo para o centro

A liturgia é a celebração do Mistério de Cristo e em particular do Mistério pascal. Ciente disso, o Papa tem adotado uma atitude bastante prática nas liturgias que preside para corrigir a disposição das pessoas, que devem se orientar para Deus na liturgia. Ele tem colocado o crucifixo no centro do altar, na sua frente e na frente do povo.
Depois de se tornar papa, Bento XVI tem celebrado somente com a cruz no centro do altar (num arranjo com seis candelabros e a cruz no centro, já chamado de arranjo beneditino, em sua homenagem), e se mostra feliz de que muitos o sigam na sua sugestão de "não avançar com novas transformações, mas simplesmente pôr a cruz no centro do altar, para que esta possa assistir ao mesmo tempo sacerdote e fiéis, para serem orientados, assim, para o Senhor, a Quem nós oramos juntos."[9]

2.2.13. Todos voltados para Deus

Há quem ache que o Concílio Vaticano II modificou a posição do altar e do sacerdote em relação ao povo, proibindo a prática anterior dos altares na parede e da celebração “de costas” para o povo. A questão toda começa com a norma da IGMR, n. 299, que diz: “Onde for possível, o altar principal deve ser construído afastado da parede, de modo a permitir andar em volta dele e celebrar a Missa de frente para o povo.” A expressão “onde for possível” claramente diz não tratar-se de uma obrigação, mas assim foi entendido na prática por muitos padres e bispos.
O mesmo Missal continua a desmentir essa interpretação quando encontramos nele algumas rubricas que dizem que  o sacerdote deve, em alguns momentos, “voltar-se para o povo[10]; isto significa que, se deve voltar-se ao povo, é porque antes não estava. Também é esta orientação espacial “versus Deum” que se tem em conta quando se diz à direita ou à esquerda do altar.
A forma histórica de oferecimento da Missa, observada inclusive pelos ritos orientais, é “ad Orientem”, voltados para o Oriente, que é Cristo, ou “versus Deum”. Litúrgica e teologicamente, o sacerdote voltado para o Altar não dá as costas para o povo, ao contrário, ele volta-se como o primeiro dentre os fiéis para oferecer o Sacrifício a Deus pelo povo.
Deve-se estudar prudentemente a oportunidade de se celebrar ad Orientem, que deve ser acompanhada de catequese. Pode ocorrer também que o espaço físico não permita esta disposição. Nestes casos de impossibilidade, o crucifixo no centro do altar e a disposição do olhar, refletindo a da alma, garantirão a centralidade de Deus no culto.

      

              3. Considerações finais


Na prática, a “reforma da reforma” vem acontecendo nas celebrações pontifícias e conforme indicamos nas sugestões acima. Cabe destacar que a revalorização do silêncio, da beleza, do canto sacro e gregoriano, do Crucifixo no centro do altar, a posição versus Deum, são algumas das contribuições da forma extraordinária da Missa, conhecida como Missa Tridentina. Esta antiga expressão litúrgica foi novamente incentivada pelo Papa Bento XVI, que veio esclarecer a questão em julho de 2007 com um Motu proprio intitulado Summorum Pontificum, reafirmando a validade da Missa Tridentina e liberando sua celebração a pedido dos fiéis sem necessidade de nenhuma autorização episcopal.
Liturgistas favoráveis à reforma de Bento XVI apontam outros aspectos já praticados pelo mesmo e por alguns cardeais e sacerdotes ligados ao movimento. Alguns pequenos gestos do uso antigo podem destacar mais a sacralidade da liturgia, como as genuflexões após a transubstanciação de ambas as espécies, e também após a elevação das mesmas, que haviam sido reduzidas apenas a duas no novo Missal; as orações durante a vestição dos paramentos na sacristia; algumas inclinações nas orações secretas que foram abandonadas. Da parte do povo, algumas partes podem ser retomadas de joelhos, como o ato penitencial e toda a Oração Eucarística, além da Comunhão.
Não se pode, porém, obrigar a nada que não seja lei. Nenhum pároco ou bispo pode exigir qualquer mudança que não seja aprovada pela autoridade competente. As mudanças virão a partir da reflexão sobre a prática e, no tempo certo, virão as normas. O sacerdote não pode impor seu gosto pessoal naquilo que é opcional, nem impedir que as mudanças ocorram dentro do permitido pela atual norma e prática litúrgica.
Bem celebrando, seja sob qualquer forma legítima, se dá glória a Deus e a Igreja colhe os frutos espirituais delas decorrentes.


*    Bacharel em Teologia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora.
[1]    CONCÍLIO VATICANO II. Lumen Gentium, 8: “...a Igreja, contendo pecadores no seu próprio seio, simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação, exercita continuamente a penitência e a renovação.”
[2]    BENTO, PAPA, XVI. Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, 38.
[3]    IGMR 45.
[4]    CÚRIA ROMANA. Instrução Acerca de Algumas Questões Sobre a Colaboração dos Fiéis Leigos no Sagrado Ministério dos Sacerdotes. Vaticano, 1997.
[5]    RS 93.
[6]    CNBB. Ritual da Penitência, 12.
[7]    BENTO, PAPA, XVI. Exortação Apostólica Verbum Domini, 59.
[8]    Idem. Audiência geral, 14 de novembro de 2007.
[9]    RATZINGER, J. Introdução ao espírito da liturgia. Apud OFICIO DAS CELEBRAÇÕES LITÚRGICAS DO SUMO PONTÍFICE. O crucifixo no centro do altar. 17 de novembro de 2009.
[10]  Cf. IGMR 124, 138, 146, 154, 157, 165, 181, 185, 243.

Inquisição: a lenda permanece

Trechos que julgo mais importantes do interessante artigo de Ronaldo Mota, disponível na íntegra em: http://www.montfort.org.br/index.php/blog/inquisicao-a-lenda-permanece/

“Tomados de feroz anticlericalismo, os enciclopedistas
franceses, com Voltaire à frente, converteram a Inquisição na sua principal
arma de combate contra a Igreja. Tratava-se, diziam, de instrumento de opressão
contra as liberdades individuais, manejado por um clero fanático e corrupto,
desejoso de manter o povo na ignorância… As mesmas idéias, as mesmas
palavras, idênticos chavões continuaram sendo utilizados, como um cantochão,
com infatigável insistência pelas correntes liberais do século XIX e chegaram
até os nossos dias.” (João B. G. Gonzaga. A
Inquisição em seu mundo
. São Paulo, ed. Saraiva, 1993, p. 101).

Vê-se continuamente em nossos dias repetir-se a velha lenda da Inquisição. Tal lenda é bem conhecida. Nela apresenta-se um tribunal tenebroso que tortura suas pobres vítimas. Por trás dele encontrar-se-ia uma Igreja opressora das consciências e inimiga da ciência, representada por monges ignorantes, corruptos e sádicos. Como sempre um tribunal pernicioso, impiedoso etc… Entretanto, a Inquisição é antes de tudo um fato histórico e deve ser tratado como tal. Sendo assim, para não confundirmos a história com a lenda, indicaremos em linhas gerais o que ficou conhecido como a lenda negra da Inquisição, para logo em seguida tratarmos da história.
 Podemos encontrar essa literatura tendenciosa já no século XVI, momento de ascensão do protestantismo, e constatarmos seu crescimento com o iluminismo no século XVIII. Contudo, é no século XIX que nos deparamos com os autores que mais contribuíram para a estruturação e perpetuação da lenda negra: Juan Antonio Llorente e Henry Charles Lea.
[...] O fanatismo do padre Llorente na luta contra a Igreja Católica era tamanho, que já sexagenário, escreveu uma obra intitulada Retrato político de los Papas, no qual, além de enumerar uma porção de calúnias, dava crédito à lenda da papisa Joana. Vê-se, pois, como surgem as lendas…
[...] Outro autor influente foi o protestante norte-americano Henry Charles Lea, que dedicou grande parte de sua vida à publicação de escritos contra a Igreja Católica[2]. [...] É interessante notar que um escritor protestante, Häbler, é quem nos dá uma clara visão do método de Lea: “La agrupación de la materia va toda encaminada a echar en cara a la Inquisición un registro de crímines lo más voluminoso posible. Puesto que no podían mantenerse en la forma en que se ha hecho hasta el presente todos los reproches de crueldad, ansia de persecución y opresión de la inteligencia han sido reforzados por medio de una inmensa mole de las particularidades más triviales, etc. Todo con el objeto de que la imagine de la Inquisición resultará lo más  repugnante posible.” (F. Ayllón. op. cit. p. 25).
Historicamente, a Inquisição não pode ser considerada como a criação de um Papa, ou de uma mente maquiavélica de pretensões despóticas. A história é muito mais complexa do que a lenda pode imaginar. A Inquisição foi, antes de tudo, fruto da reação de uma sociedade contra movimentos degeneradores da ordem, da moral e da cultura então reinantes.
 [...] João Bernardino Gonzaga, ao analisar o contexto social no qual surgiu a Inquisição, afirmou: “No caso da Inquisição, quem a exigiu e impôs, antes da Igreja, foram os governantes e o povo, que viam, nos hereges, rebeldes perigosos e perturbadores. A História mostra que, muitas vezes, os populares se antecipavam às autoridades e se encarregavam de puni-los, levando-os à fogueira.” (João B. G. Gonzaga. A Inquisição em seu mundo. São Paulo, ed. Saraiva, 1993, p. 114).
[...]
Por exemplo, em 1025, um grupo de clérigos de Orléans, defensor de doutrinas heréticas, expõe sua doutrina diante de uma assembléia de bispos, abades e senhores presidida pelo rei Robert. Os hereges aferram-se às suas doutrinas, recusam submeter-se e são excomungados pelo clero. Contudo, o castigo ordenado pelo rei é a pena da fogueira.[9] Os exemplos são diversos. Em 1144, em Liège, alguns hereges aguardam a sentença do Tribunal. Os juízes, esperando a conversão dos hereges acusados, conseguem a custo livrá-los do furor do povo impaciente, que quer queimá-los. [...]
Por volta de 1140, os discípulos de Pierre de Bruys, uma seita iconoclasta, conseguem algum sucesso na região do Midi mediterrâneo. Pedro o Venerável, abade de Cluny, chega a escrever um tratado contra eles, chamando-os de “inimigos da cruz de Cristo”. Esses sucessos, entretanto, não duram por muito tempo, pois o povo, cansando de suas profanações, queima-os nesse mesmo ano.[12] No Saxe, em 1052, o Imperador Henrique III enforca muitos hereges.[13] Em 1120, em Soissons, a multidão impaciente com o Bispo, que demorava em justiçar alguns hereges, arranca-os de suas mãos para levá-los imediatamente à fogueira.
[...]
A atitude da Igreja em todos esses casos foi sempre de tentar converter os hereges. Por mais que os lendólogos neguem-se a ver, foi a conversão dos hereges – e não sua condenação à morte – o verdadeiro objetivo da Igreja. O espírito da Igreja Católica – que a
lenda insiste em apresentar como tirana – está expresso nas palavras de São Bernardo de Claraval, referentes ao massacre de Colônia:
O povo de Colônia passou da medida. Se aprovamos seu zelo, não aprovamos, de modo algum, o que fez, pois a fé é obra da persuasão e não podemos impô-la.” (N. Falbel. op. cit. p. 57.)

[as citações e referências podem ser encontradas no artigo original
Outros artigos interessantes sobre lendas negras:

O Caso Galileu (série A Igreja Católica: Construtora da Civilização do Dr. Thomas Woods):

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Fundamentações do sacramento da Unção dos Enfermos no Ordo Unctionis Infirmorum

Cristológica:
Cristo revela o valor e o sentido da doença e demonstra seu amor pelos doentes, “que tantas vezes visitou e curou ao longo de sua vida.”(n. 1). Ele “participou das dores de todos os homens (cf. Is 53,4-5)” e “continua ainda a padecer” (n. 2).
Deve-se recomendar os doentes ao Senhor, “que padeceu e foi glorificado”, e ainda, “exortá-los mesmo a se unirem de coração à paixão e à morte de Cristo” (n. 34).
Paulo VI, na Constituição Apostólica sobre o sacramento da Unção dos Enfermos, ainda afirma a instituição deste sacramento por Cristo (cf. Mc 6,13).

Eclesiológica:
O empenho pela saúde visa também que a pessoa “possa desempenhar o seu papel na sociedade e na Igreja” (n. 3). Na sagrada Unção, o doente “será salvo pela sua fé e pela fé da Igreja”, dispensadora dos sacramentos (n. 7). “No Corpo de Cristo, que é a Igreja, se um membro sofre, todos os outros sofrem com ele (1Cor 12,26)” (n. 32).
Desempenham especial “ministério de consolação as pessoas da família e todos aqueles que de qualquer modo se ocupem dos doentes”, pelas “palavras da fé e a oração comum” (n. 34). A Igreja está presente mesmo que somente nas pessoas do ministro e do enfermo (n. 40b).

Pneumatológica:
O efeito deste sacramento é a graça do Espírito Santo (n. 6 e 25) que reanima e aumenta a confiança do enfermo em Deus.

Antropológica:
A doença está “intimamente ligada à condição do homem pecador”, mesmo que não seja considerada um castigo pelo pecado (n. 2). “O homem deve lutar ardentemente contra toda doença” para o bem de toda a sociedade e da Igreja (n. 3). A Unção deve ser conferida ao enfermo que tenha uso da razão (mesmo presumido, cf. 14), para que possa encontrar também conforto no sacramento (n. 12).
Paulo VI atesta, na Constituição, o costume de ungir as partes do corpo ligadas aos sentidos, responsáveis pelos pecados.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A contracepção segundo a Humanae Vitae

CARTA ENCÍCLICA HUMANAE VITAE DE SUA SANTIDADE O PAPA PAULO VI
SOBRE A REGULAÇÃO DA NATALIDADE
I. ASPECTOS NOVOS DO PROBLEMA E COMPETÊNCIA DO MAGISTÉRIO
Visão nova do problema
2. rápido desenvolvimento demográfico. as condições de trabalho e de habitação.
maneira de considerar a pessoa da mulher e o seu lugar na sociedade.
domínio e organização racional das forças da natureza: ao corpo, à vida psíquica, à vida social e até mesmo às leis que regulam a transmissão da vida.
II. PRINCÍPIOS DOUTRINAIS 
Uma visão global do homem
7. qualquer problema que diga respeito à vida humana, deve ser considerado numa perspectiva que transcenda as vistas parciais - sejam elas de ordem biológica, psicológica, demográfica ou sociológica - à luz da visão integral do homem e da sua vocação, não só natural e terrena, mas também sobrenatural e eterna.
O amor conjugal
8. O amor conjugal exprime a sua verdadeira natureza e nobreza, quando se considera na sua fonte suprema, Deus que é Amor (6), "o Pai, do qual toda a paternidade nos céus e na terra toma o nome".(7)
AS CARACTERÍSTICAS DO AMOR CONJUGAL
9. É, antes de mais, um amor plenamente humano, quer dizer, ao mesmo tempo espiritual e sensível. Não é, portanto, um simples ímpeto do instinto ou do sentimento; mas é também, e principalmente, ato da vontade livre, destinado a manter-se e a crescer, mediante as alegrias e as dores da vida cotidiana.
É depois, um amor total, quer dizer, uma forma muito especial de amizade pessoal, em que os esposos generosamente compartilham todas as coisas, sem reservas indevidas e sem cálculos egoístas. Quem ama verdadeiramente o próprio consorte, não o ama somente por aquilo que dele recebe, mas por ele mesmo, por poder enriquecê-lo com o dom de si próprio.
É, ainda, amor fiel e exclusivo, até à morte. Assim o concebem, efetivamente, o esposo e a esposa no dia em que assumem, livremente e com plena consciência, o compromisso do vínculo matrimonial.
É, finalmente, amor fecundo que não se esgota na comunhão entre os cônjuges, mas que está destinado a continuar-se, suscitando novas vidas.
10. Sendo assim, o amor conjugal requer nos esposos uma consciência da sua missão de "paternidade responsável".
Em relação com os processos biológicos, paternidade responsável significa conhecimento e respeito pelas suas funções: leis biológicas que fazem parte da pessoa humana (9).
Em relação às tendências do instinto e das paixões, a paternidade responsável significa o necessário domínio que a razão e a vontade devem exercer sobre elas.
Em relação às condições físicas, econômicas, psicológicas e sociais, a paternidade responsável exerce-se tanto com a deliberação ponderada e generosa de fazer crescer uma família numerosa, como com a decisão, tomada por motivos graves e com respeito pela lei moral, de evitar temporariamente, ou mesmo por tempo indeterminado, um novo nascimento.
O exercício responsável da paternidade implica, portanto, que os cônjuges reconheçam plenamente os próprios deveres, para com Deus, para consigo próprios, para com a família e para com a sociedade, numa justa hierarquia de valores.
Na missão de transmitir a vida, eles não são, portanto, livres para procederem a seu próprio bel-prazer, como se pudessem determinar, de maneira absolutamente autônoma, as vias honestas a seguir, mas devem, sim, conformar o seu agir com a intenção criadora de Deus, expressa na própria natureza do matrimônio e dos seus atos e manifestada pelo ensino constante da Igreja (10).
Respeitar a natureza e a finalidade do ato matrimonial
11. Estes atos, com os quais os esposos se unem em casta intimidade e através dos quais se transmite a vida humana, são, como recordou o recente Concílio, "honestos e dignos" (11); e não deixam de ser legítimos se, por causas independentes da vontade dos cônjuges, se prevê que vão ser infecundos, pois que permanecem destinados a exprimir e a consolidar a sua união. De fato, como o atesta a experiência, não se segue sempre uma nova vida a cada um dos atos conjugais. Deus dispôs com sabedoria leis e ritmos naturais de fecundidade, que já por si mesmos distanciam o suceder-se dos nascimentos. Mas, chamando a atenção dos homens para a observância das normas da lei natural, interpretada pela sua doutrina constante, a Igreja ensina que qualquer ato matrimonial deve permanecer aberto à transmissão da vida(12).
Inseparáveis os dois aspectos: união e procriação
12. Esta doutrina, muitas vezes exposta pelo Magistério, está fundada sobre a conexão inseparável que Deus quis e que o homem não pode alterar por sua iniciativa, entre os dois significados do ato conjugal: o significado unitivo e o significado procriador.
Na verdade, pela sua estrutura íntima, o ato conjugal, ao mesmo tempo que une profundamente os esposos, torna-os aptos para a geração de novas vidas, segundo leis inscritas no próprio ser do homem e da mulher. Salvaguardando estes dois aspectos essenciais, unitivo e procriador, o ato conjugal conserva integralmente o sentido de amor mútuo e verdadeiro e a sua ordenação para a altíssima vocação do homem para a paternidade.
Fidelidade ao desígnio divino
13. Em boa verdade, justamente se faz notar que um ato conjugal imposto ao próprio cônjuge, sem consideração pelas suas condições e pelos seus desejos legítimos, não é um verdadeiro ato de amor e nega, por isso mesmo, uma exigência da reta ordem moral, nas relações entre os esposos. Assim, quem refletir bem, deverá reconhecer de igual modo que um ato de amor recíproco, que prejudique a disponibilidade para transmitir a vida que Deus Criador de todas as coisas nele inseriu segundo leis particulares, está em contradição com o desígnio constitutivo do casamento e com a vontade do Autor da vida humana. Usar deste dom divino, destruindo o seu significado e a sua finalidade, ainda que só parcialmente, é estar em contradição com a natureza do homem, bem como com a da mulher e da sua relação mais íntima; e, por conseguinte, é estar em contradição com o plano de Deus e com a sua vontade. Pelo contrário, usufruir do dom do amor conjugal, respeitando as leis do processo generativo, significa reconhecer-se não árbitros das fontes da vida humana, mas tão somente administradores dos desígnios estabelecidos pelo Criador.
Vias ilícitas para a regulação dos nascimentos
14. o aborto querido diretamente e procurado, mesmo por razões terapêuticas (14).
a esterilização direta, quer perpétua quer temporária, tanto do homem como da mulher.(15)
É, ainda, de excluir toda a ação que, ou em previsão do ato conjugal, ou durante a sua realização, ou também durante o desenvolvimento das suas conseqüências naturais, se proponha, como fim ou como meio, tornar impossível a procriação (16).
Não se podem invocar, como razões válidas, para a justificação dos atos conjugais tornados intencionalmente infecundos, o mal menor. Na verdade, se é lícito, algumas vezes, tolerar o mal menor para evitar um mal maior, ou para promover um bem superior (17), nunca é lícito, nem sequer por razões gravíssimas, fazer o mal, para que daí provenha o bem (18); mesmo se for praticado com intenção de salvaguardar ou promover bens individuais, familiares, ou sociais.
Liceidade dos meios terapêuticos
15. A Igreja, por outro lado, não considera ilícito o recurso aos meios terapêuticos, verdadeiramente necessários para curar doenças do organismo, ainda que daí venha a resultar um impedimento, mesmo previsto, à procriação, desde que tal impedimento não seja, por motivo nenhum, querido diretamente. (19)
Liceidade do recurso aos períodos infecundos
16. objeta-se hoje que é prerrogativa da inteligência humana dominar as energias proporcionadas pela natureza irracional e orientá-las para um fim conforme com o bem do homem. Ora, sendo assim, perguntam-se alguns, se atualmente não será talvez razoável em muitas circunstâncias recorrer à regulação artificial dos nascimentos, uma vez que, com isso, se obtém a harmonia e a tranqüilidade da família e melhores condições para a educação dos filhos já nascidos.
Se, portanto, existem motivos sérios para distanciar os nascimentos, que derivem ou das condições físicas ou psicológicas dos cônjuges, ou de circunstâncias exteriores, a Igreja ensina que então é lícito ter em conta os ritmos naturais imanentes às funções geradoras, para usar do matrimônio só nos períodos infecundos e, deste modo, regular a natalidade, sem ofender os princípios morais que acabamos de recordar (20).
A Igreja é coerente consigo própria, quando assim considera lícito o recurso aos períodos infecundos, ao mesmo tempo que condena sempre como ilícito o uso dos meios diretamente contrários à fecundação, mesmo que tal uso seja inspirado em razões que podem aparecer honestas e sérias. Na realidade, entre os dois casos existe uma diferença essencial: no primeiro, os cônjuges usufruem legitimamente de uma disposição natural; enquanto que no segundo, eles impedem o desenvolvimento dos processos naturais. É verdade que em ambos os casos os cônjuges estão de acordo na vontade positiva de evitar a prole, por razões plausíveis, procurando ter a segurança de que ela não virá; mas, é verdade também que, somente no primeiro caso eles sabem renunciar ao uso do matrimônio nos períodos fecundos, quando, por motivos justos, a procriação não é desejável, dele usando depois nos períodos agenésicos, como manifestação de afeto e como salvaguarda da fidelidade mútua.
Graves conseqüências dos métodos de regulação artificial da natalidade
17. Considerem, antes de mais, o caminho amplo e fácil que tais métodos abririam à infïdelidade conjugal e à degradação da moralidade. Não é preciso ter muita experiência para conhecer a fraqueza humana e para compreender que os homens - os jovens especialmente, tão vulneráveis neste ponto - precisam de estímulo para serem féis à lei moral e não se lhes deve proporcionar qualquer meio fácil para eles eludirem a sua observância. É ainda de recear que o homem, habituando-se ao uso das práticas anticoncepcionais, acabe por perder o respeito pela mulher e, sem se preocupar mais com o equilíbrio físico e psicológico dela, chegue a considerá-la como simples instrumento de prazer egoísta e não mais como a sua companheira, respeitada e amada.
Pense-se ainda seriamente na arma perigosa que se viria a pôr nas mãos de autoridades públicas, pouco preocupadas com exigências morais. Quem poderia reprovar a um governo o fato de ele aplicar à solução dos problemas da coletividade aquilo que viesse a ser reconhecido como lícito aos cônjuges para a solução de um problema familiar? Quem impediria os governantes de favorecerem e até mesmo de imporem às suas populações, se o julgassem necessário, o método de contracepção que eles reputassem mais eficaz? Deste modo, os homens, querendo evitar dificuldades individuais, familiares, ou sociais, que se verificam na observância da lei divina, acabariam por deixar à mercê da intervenção das autoridades públicas o setor mais pessoal e mais reservado da intimidade conjugal.
III. DIRETIVAS PASTORAIS
Domínio de si mesmo
21. Uma prática honesta da regulação da natalidade exige, acima de tudo, que os esposos adquiram sólidas convicções acerca dos valores da vida e da família e que tendam a alcançar um perfeito domínio de si mesmos. O domínio do instinto, mediante a razão e a vontade livre, impõe, indubitavelmente, uma ascese, para que as manifestações afetivas da vida conjugal sejam conformes com a ordem reta e, em particular, concretiza-se essa ascese na observância da continência periódica. Mas, esta disciplina, própria da pureza dos esposos, longe de ser nociva ao amor conjugal, confere-lhe pelo contrário um valor humano bem mais elevado. Requer um esforço contínuo, mas, graças ao seu benéfico influxo, os cônjuges desenvolvem integralmente a sua personalidade, enriquecendo-se de valores espirituais: ela acarreta à vida familiar frutos de serenidade e de paz e facilita a solução de outros problemas; favorece as atenções dos cônjuges, um para com o outro, ajuda-os a extirpar o egoísmo, inimigo do verdadeiro amor e enraíza-os no seu sentido de responsabilidade no cumprimento de seus deveres.
Criar um ambiente favorável à castidade
22. Tudo aquilo que nos modernos meios de comunicação social leva à excitação dos sentidos, ao desregramento dos costumes, bem como todas as formas de pornografia ou de espetáculos licenciosos, devem suscitar a reação franca e unânime de todas as pessoas solícitas pelo progresso da civilização e pela defesa dos bens do espírito humano.
APELO AOS GOVERNANTES
23. Existe uma outra via, pela qual os Poderes públicos podem e devem contribuir para a solução do problema demográfico: é a via de uma política familiar providente, de uma sábia educação das populações, que respeite a lei moral e a liberdade dos cidadãos.
AOS HOMENS DE CIÊNCIA
24. a ciência médica consiga fornecer uma base suficientemente segura para a regulação dos nascimentos, fundada na observância dos ritmos naturais. (29)
AOS ESPOSOS CRISTÃOS
25. implorem com oração perseverante o auxílio divino; abeirem-se, sobretudo pela Santíssima Eucaristia, da Penitência.
APOSTOLADO NOS LARES
26. os cônjuges mesmos, comunicar a outros a sua experiência.
AOS MÉDICOS E AO PESSOAL SANITÁRIO
AOS SACERDOTES
28. A vossa primeira tarefa - especialmente para os que ensinam a teologia moral - é expor, sem ambigüidades, os ensinamentos da Igreja acerca do matrimônio. Sede, pois, os primeiros a dar exemplo, no exercício do vosso ministério, de leal acatamento, interno e externo, do Magistério da Igreja. Sabeis também que é da máxima importância, para a paz das consciências e para a unidade do povo cristão, que, tanto no campo da moral como no do dogma, todos se atenham ao Magistério da Igreja e falem a mesma linguagem. Por isso, com toda a nossa alma, vos repetimos o apelo do grande Apóstolo São Paulo: "Rogo-vos, irmãos, pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos o mesmo e que entre vós não haja divisões, mas que estejais todos unidos, no mesmo espírito e no mesmo parecer".(40)
29. Não minimizar em nada a doutrina salutar de Cristo é forma de caridade eminente para com as almas. Mas, isso deve andar sempre acompanhado também de paciência e de bondade, de que o mesmo Senhor deu o exemplo, ao tratar com os homens. Tendo vindo para salvar e não para julgar,(41) Ele foi intransigente com o mal, mas misericordioso para com os homens.
AOS BISPOS
30. uma ação pastoral coordenada, em todos os campos da atividade humana, econômica, cultural e social.
Dada em Roma, junto de São Pedro, na Festa de São Tiago Apóstolo, 25 de julho do ano de 1968, sexto do nosso pontificado.
PAULUS PP. VI


DSI - 234 O juízo acerca do intervalo entre os nascimentos e o número dos filhos a procriar
compete somente aos esposos. Este é um seu direito inalienável, a ser exercitado diante
de Deus, considerando os deveres para consigo mesmos, para com os filhos já nascidos,
a família e a sociedade[528]. A intervenção dos poderes públicos, no âmbito das suas
competências, para a difusão de uma informação apropriada e a adoção de medidas
oportunas em campo demográfico, deve ser efetuada no respeito das pessoas e da
liberdade dos casais: ninguém os pode substituir nas suas opções[529]; tampouco o
podem fazer as várias organizações que atuam neste setor.
 [528]Cf. Concílio Vaticano II, Const. apost. Gaudium et spes, 50: AAS 58 (1966) 1070-
1072; Catecismo da Igreja Católica, 2368; Paulo VI, Carta encicl. Populorum
progressio, 37: AAS 59 (1967) 275-276.
[529]Cf. Catecismo da Igreja Católica, 2372.