sábado, 21 de fevereiro de 2009

Quaresma, Liturgia e Silêncio

O amor misericordioso de Deus nos enche da esperança de uma vida nova mediante o mistério pascal, o fundamento da nossa fé cristã. De fato, o tempo da quaresma na vida da Igreja orienta seus membros para uma renovação profunda, como fruto da conversão que deve ser animada pela boa nova das palavras e ações de Jesus.

A nossa fé se expressa de um modo especial na vida litúrgica. Para nosso auxílio, a Igreja propõe gestos e atitudes significativos.

O silêncio antes, durante e após a Celebração é retomado com mais evidência nesse tempo da Quaresma. Um silêncio que brota do coração que celebra e o conduz ao essencial, isto é, o mistério da fé. O “hino de louvor” e o “Aleluia” da aclamação ao Evangelho são omitidos, o que torna uma referência para que os fiéis compreendam que a Igreja está num retiro, na busca do despojamento tendo como Mestre e Modelo o próprio Jesus.

Por esse motivo, “no tempo da Quaresma só é permitido o toque do órgão e dos outros instrumentos musicais para sustentar o canto” (IGMR 313) de modo que a assembléia experimente certo impacto e se envolva efetivamente no que a Igreja propõem. O mesmo serve para ornamentações: “No tempo da Quaresma não é permitido adornar o altar com flores. Excetuam-se, porém, o domingo Laetare (IV da Quaresma), as solenidades e as festas” que podem ocorrer nos dias de semana (IGMR 305).

Seria uma grande oportunidade para pôr em prática o que a própria Instrução Geral do Missal Romano indica (IGMR 45): “no ato penitencial e a seguir ao convite à oração, o silêncio destina-se ao recolhimento interior; a seguir às leituras ou à homilia, é para uma breve meditação sobre o que se ouviu; depois da Comunhão, favorece a oração interior de louvor e ação de graças”. Evite-se a insistência de tantos comentários, com informações evidentes e desnecessárias, que atrapalham o “ritmo” da Santa Liturgia.

Colaboração de Ir. Ronildson de Aquino, FAM - ronyfam@yahoo.com.br

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O Reino de Deus está próximo

Pistas de reflexão sobre a liturgia do I Domingo da Quaresma (Gn 9,8-15; Sl 25; 1Pd 3,18-22; Mc 1,12-15)

No relato do dilúvio, Deus promete a Noé e a todos os seus descendentes que “as águas não mais se tornarão um dilúvio para destruir toda carne” (Gn 9,15). Jesus, a nova e eterna Aliança, faz das águas um sinal de salvação e do seu Reino que se aproxima.
De fato, pelo Batismo somos mergulhados no mistério da morte do Filho de Deus, e com Ele ressurgimos para uma vida nova. Alimentados pela Palavra e a Eucaristia, e vencendo as tentações, caminhamos fortalecidos para o Reino definitivo de Deus, meta de toda a nossa existência.
Eis o significado e o compromisso para o qual a Igreja nos chama nesta Quaresma: fazer da nossa vida uma intensa preparação para a Páscoa, nossa ressurreição com Cristo, anunciando com o testemunho e a palavra que o Reino de Deus foi inaugurado e precisa da nossa conversão diária para que ele cresça.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Infalibilidade do Sumo Pontífice

Muitos, por desconhecimento dessa doutrina ou por má fé, questionam aos Católicos como pode o Papa ser isento de erro se ele peca. Para isso é necessário elucidar que infalibilidade é diferente de impecabilidade.

A doutrina da Infalibilidade do Papa diz que o Sumo Pontífice é infalível quando fala nas condições "ex cathedra", isto é:

1. Quando, na qualidade de Pastor Supremo e Doutor de todos os fiéis, se dirige a toda a Igreja;
2. Quando o objeto de seu ensinamento é a moral, fé ou os costumes;
3. Quando manifesta a vontade de dar decisão dogmática e não simples advertência, instrução de ordem geral.

Em suma, o Papa é infalível quando se dirige, como tal, a toda a Igreja; quando o objeto de seu pronunciamento é moral, fé ou os costumes e quando pronuncia que dará decisão dogmática, ou seja, ele define, manifesta tal decisão.

Em outras palavras, o Papa está passível de falha fora dessas três condições. É necessário elucidar, no entanto, que quando dissemos que o Santo Padre faz um pronunciamento passível de falha, não significa necessariamente que ele falhou, apenas que tal ensinamento ou pronunciamento não foi emitido nas condições "ex-catedra".

A razão da infalibilidade pode ser deduzida das Sagradas Escrituras. Vemos em Mt 28,19-20:

"Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo."(Jesus Cristo à sua Igreja)

Em Jo 14,17.26 Jesus diz a seus apóstolos:
"E o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece, mas vós o conhecereis, porque permanecerá convosco e estará em vós."

"Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo que vos tenho dito".

As próprias "Chaves do Reino dos céus" e a promessa de que "as portas do inferno não prevaleceriam sobre ela" (Mt 16, 18-19) é uma característica da infalibilidade do Papa, pois, se Nosso Senhor disse aos apóstolos que eles iriam ensinar a humanidade e que estará com sua Igreja (composta inicialmente por São Pedro e os outros 11 onze apóstolos) até o fim do mundo, então, pela providência divina, esta Igreja não ensinaria nada contra a vontade de Deus.

Portanto, o Papa é infalível nas suas funções como autoridade instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo. No entanto, ter a infalibilidade de ensinar não significa necessariamente ser santo, pois o próprio São Pedro, primeiro Papa da Igreja fundada por Jesus Cristo, pecou.

O fiel comum não é capaz, através de debates com outras pessoas, de definir um ensinamento isento de erro, mesmo os grandes teólogos não possuem essa capacidade. Suas conclusões somente são aceitas quando são colocadas sob apreciação do Magistério Infalível da Santa Igreja centrada na figura do Papa.

Eis o que se deve entender por "infalibilidade" da Igreja, no seu Magistério e no Papa.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Quantas procissões podem haver na Missa?

As procissões estão entre os gestos e atitudes corporais que “visam conseguir que toda a celebração brilhe pela beleza e nobre simplicidade, que se compreenda a significação verdadeira e plena das suas diversas partes e que se facilite a participação de todos. Para isso deve atender-se ao que está definido pelas leis litúrgicas e pela tradição do Rito Romano, e ao que concorre para o bem comum espiritual do povo de Deus, mais do que à inclinação e arbítrio de cada um” (IGMR 42).
As procissões previstas no Missal Romano são (conferir IGMR 44):
1. “do sacerdote ao dirigir-se para o altar com o diácono e os ministros;
2. do diácono, antes da proclamação do Evangelho, ao levar o Evangeliário ou Livro dos evangelhos para o ambão;
3. dos fiéis ao levarem os dons
4. e ao aproximarem-se para a Comunhão.
Convém que estas ações e procissões se realizem com decoro, enquanto se executam os cânticos respectivos, segundo as normas estabelecidas para cada caso”.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Festa da Conversão de São Paulo

No dia 25 de janeiro se celebra a festa da Conversão de São Paulo. Como o Domingo é o principal dia de festa do cristão, este ano é celebrado o 3º Domingo do Tempo Comum, conforme as Normas Universais para o Ano Litúrgico e o Calendário.

Por ocasião no Ano Paulino (28 de junho de 2008 a 29 de junho de 2009, dois mil anos do nascimento do Apóstolo Paulo), a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos (órgão do Vaticano responsável pela liturgia católica) concedeu por meio de decreto, de maneira extraordinária, que no dia 25 de Janeiro de 2009 se possa celebrar em cada igreja uma Missa segundo o formulário Conversão de São Paulo Apóstolo, como está no Missal Romano.

Mais do que conhecer a figura de Paulo, sua vida e personalidade, o Ano Paulino proposto pelo Papa chama a aprender daquele a quem São Paulo amava a ponto de suportar tudo: o Cristo. Em suas cartas, ele luta veementemente contra quem o queira colocar acima de Cristo: “Então estaria Cristo dividido? É Paulo quem foi crucificado por vós? É em nome de Paulo que fostes batizados?” (1 Cor 1, 13).

E quem é que Paulo aponta? Por ocasião de sua conversão, o então Saulo pergunta: “Quem és, Senhor?”, e recebe como resposta: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues” (Atos 9, 4s). Ora, Jesus já havia morrido, ressuscitado e subido ao céu. Saulo não perseguia a Jesus de Nazaré, mas a Igreja, os cristãos. Jesus ressuscitado se identifica com a Igreja.

Esse acontecimento que mudou a vida de Saulo, um encontro pessoal com o Ressuscitado, está no fundo da doutrina sobre a Igreja como Corpo de Cristo. A Igreja não é mera associação de pessoas ou uma “luta por uma causa”, mas uma Pessoa. Paulo, a semelhança de Jesus que esteve três dias morto para ressuscitar, esteve três dias sem poder ver, estar em pé, comer; depois no momento do batismo, de sua aceitação da Igreja, seus olhos voltaram a abrir-se, pôde comer e retomou as forças, voltou à vida (cf. Atos 9, 18). Depois do seu batismo, relativizou tudo quanto havia vivido sem ser para Cristo. “Mas tudo isso, que para mim eram vantagens, considerei perda por Cristo. Na verdade, julgo como perda todas as coisas, em comparação com esse bem supremo: o conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor. Por ele tudo desprezei e tenho em conta de esterco, a fim de ganhar Cristo” (Filipenses 3, 7-8). E não era de uma vida devassa que Paulo falava, mas de uma vida irrepreensível: “Se há quem julgue ter motivos humanos para se gloriar, maiores os possuo eu: circuncidado ao oitavo dia, da raça de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu e filho de hebreus. Quanto à lei, fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da Igreja; quanto à justiça legal, declaradamente irrepreensível” (Filipenses 3, 4-6).

Paulo havia acreditado que a prática escrupulosa da lei o faria justo diante de Deus. Seu encontro com Jesus Ressuscitado o fez perceber que a salvação vem de Deus. Cabe ao homem “converter-se”, isto é, crer e acolher, na fé, a oferta de Deus e viver, a seguir, suas exigências, fortalecidos no Corpo de Cristo, que nos assimila a Si em cada Eucaristia.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Uma posição heterodoxa sobre as virtudes teologais e o Reino de Deus

COMBLIN, José. O caminho. Ensaio sobre o seguimento de Jesus. 2ª. Ed. São Paulo: Paulus, 2005. 227pp.


O autor pretende tratar do que é ser cristão. Baseia sua exposição nas três virtudes teologais, as quais dedica cada um dos três capítulos do livro respectivamente à esperança, à fé e ao amor.

Já no prólogo propõe a distinção que norteia todo seu livro: o caminho de Jesus é diferente de religião (p. 8). Esta, tendo em vista claramente e primeiramente a Igreja Católica, é empecilho para seguimento de Jesus.

O primeiro capítulo é sobre a esperança, por ser a virtude que norteia nossa época (p. 13). Após expor longamente sobre como não foi vivida a esperança em outras épocas, chega à conclusão que o atual conceito de progresso traz em si uma esperança (p. 18), não mais escatológica, mas para esse mundo (p. 20-23). Essa esperança aspira a uma nova forma de convivência humana, isto é, o Reino de Deus, uma “mudança total da sociedade” (p. 33).

O autor afirma que “a única tarefa que justifica a existência da igreja” é “refazer toda a educação do povo” (p. 45) colocando-a ao lado das outras organizações. “O lugar dos cristãos é no meio deste mundo, fazendo parte dos movimentos de libertação dos oprimidos”, afirma o autor, elencando e justificando alguns movimentos de revolta como “portadores de esperança” (p. 46).

No subtítulo “Esperança e realidade histórica” critica a Igreja Católica por suas “proposições universais”, “cristianismo invariável”, alegando ser o cristianismo um momento na história (p. 53). Diz que a história de Israel é a história de uma esperança, de uma promessa. Quando começaram a perder a esperança para este mundo, “começou a aparecer a idéia de ressurreição” (p. 56). No mesmo subtítulo cai em contradição ao afirmar que “enquanto estamos a caminho – não podemos esperar uma realização plena do Reino de Deus [...] O Reino de Deus nunca será uma estrutura instalada de modo definitivo na história” (p. 61).

No capítulo sobre a Fé, o autor dedica uma longa introdução a demonstrar que fé foi confundida com ortodoxia. No segundo subtítulo define a fé como “resposta ao anúncio da boa-nova” (p. 93). “A fé cristã situa-se nessa fé em si mesmo, na própria capacidade e na busca da liberdade e da vida” (p. 95). A fé em Jesus é seguir o seu caminho (p. 118) e encontrá-lo no pobre (p. 121), não no culto. “Crer no Espírito Santo é crer nessa força e na capacidade de lutar por um mundo diferente”, é crer em si mesmo (p. 122) em oposição à instituição Santa Sé, da qual, segundo o autor, somos obrigados “a relativizar muito o valor dos textos publicados” (p. 123).

Na introdução sobre o capítulo do Amor, o autor apresenta os aspectos da questão do amor a serem tratados nos dias atuais: o reconhecimento do outro e a compaixão que gera ação.

O amor é a experiência humana concreta do conhecimento de Deus (p. 141) e tem por objeto pessoas humanas (p. 142). O objeto próprio do amor é o pobre (p. 148). As opções para amar os pobres são a inculturação (p. 155) ou a sua inserção no mundo global (p. 156).

O livro, em suma, é em sua maior parte narração de erros do passado. Quer comover por sua linguagem fácil, mas não apresenta novidade significativa na compreensão das virtudes. Estas não são apresentadas pelo autor como teologais, mas são o esforço do homem a construir uma nova sociedade neste mundo.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Regulação da natalidade: a profecia da Humanae Vitae

Sobre a regulação da natalidade, agora relendo a CARTA ENCÍCLICA HUMANAE VITAE DE SUA SANTIDADE O PAPA PAULO VI SOBRE A REGULAÇÃO DA NATALIDADE (1968, http://www.vatican.va/holy_father/paul_vi/encyclicals/documents/hf_p-vi_enc_25071968_humanae-vitae_po.html), me pareceu profecia:

"Considerem, antes de mais, o caminho amplo e fácil que tais métodos abririam à infïdelidade conjugal e à degradação da moralidade. Não é preciso ter muita experiência para conhecer a fraqueza humana e para compreender que os homens - os jovens especialmente, tão vulneráveis neste ponto - precisam de estímulo para serem féis à lei moral e não se lhes deve proporcionar qualquer meio fácil para eles eludirem a sua observância. É ainda de recear que o homem, habituando-se ao uso das práticas anticoncepcionais, acabe por perder o respeito pela mulher e, sem se preocupar mais com o equilíbrio físico e psicológico dela, chegue a considerá-la como simples instrumento de prazer egoísta e não mais como a sua companheira, respeitada e amada.

Pense-se ainda seriamente na arma perigosa que se viria a pôr nas mãos de autoridades públicas, pouco preocupadas com exigências morais. Quem poderia reprovar a um governo o fato de ele aplicar à solução dos problemas da coletividade aquilo que viesse a ser reconhecido como lícito aos cônjuges para a solução de um problema familiar? Quem impediria os governantes de favorecerem e até mesmo de imporem às suas populações, se o julgassem necessário, o método de contracepção que eles reputassem mais eficaz? Deste modo, os homens, querendo evitar dificuldades individuais, familiares, ou sociais, que se verificam na observância da lei divina, acabariam por deixar à mercê da intervenção das autoridades públicas o setor mais pessoal e mais reservado da intimidade conjugal". Grifos meus.

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