A Carta Encíclica Caritas in Veritate do papa Bento XVI, publicada a 29 de junho de 2009, trata do desenvolvimento humano integral e coloca a verdade como indispensável à caridade, contra todo relativismo. O atual cenário de crise mundial e a necessidade de novas formas de relação teve muito peso na elaboração da carta. Pretendo, nesta resenha, de forma sintética e limitada, abordar o tema da verdade como essencial ao anúncio cristão.
“Defender a verdade, propô-la com humildade e convicção e testemunhá-la na vida são formas exigentes e imprescindíveis de caridade. Esta, de fato, « rejubila com a verdade » (1 Cor 13, 6)”. O anúncio de Jesus Cristo, isto é, da Verdade (cf. Jo 14, 6), é caminho e força para o desenvolvimento humano integral.
Caridade (amor) sem verdade é carente de sentido e se torna sentimentalismo.
“No atual contexto social e cultural, em que aparece generalizada a tendência de relativizar a verdade, viver a caridade na verdade leva a compreender que a adesão aos valores do cristianismo é um elemento útil e mesmo indispensável para a construção duma boa sociedade e dum verdadeiro desenvolvimento humano integral”.
Aqui se está afirmando a validade universal e a indispensabilidade dos “valores do cristianismo”, não necessariamente a pertença ao cristianismo. Como a verdade é um dos eixos principais da carta, de modo nenhum o papa poderia negar – e não o fez – o caráter de verdade do cristianismo e a universalidade salvífica de Jesus Cristo.
A CARIDADE, MANIFESTAÇÃO DA VERDADE
“A verdade há-de ser procurada, encontrada e expressa na « economia » da caridade”. Esta contribui para “acreditar a verdade, mostrando o seu poder de autenticação e persuasão na vida social concreta”. A caridade é a prática da verdade.
Destinatários do amor (graça) de Deus (Trindade), “os homens são constituídos sujeitos de caridade, chamados a fazerem-se eles mesmos instrumentos da graça, para difundir a caridade de Deus e tecer redes de caridade”.
O mundo em crescente globalização e, ao mesmo tempo, tendente ao relativismo, corre o risco de que não faça corresponder a todos uma “ética das consciências e das inteligências”. A caridade guiada pela verdade exige que haja “critérios orientadores da ação moral”, tais como são a justiça e o bem comum.
Na linha do Concílio Vaticano II e de Paulo VI na Populorum Progressio, Bento XVI reafirma que o serviço da caridade da Igreja “tende a promover o desenvolvimento integral do homem”, entendido quanto “à totalidade da pessoa em todas as suas dimensões”, sem que se exclua “a perspectiva duma vida eterna”.
A caridade é meio de evangelização. “O testemunho da caridade de Cristo através de obras de justiça, paz e desenvolvimento faz parte da evangelização”.
CENTRALIDADE DO HOMEM PARA O VERDADEIRO DESENVOLVIMENTO
O progresso tem um aspecto transcendente que é o da vocação: “cada homem é chamado a desenvolver-se”. O caráter de verdade da caridade impõe que cada ação vise “promover todos os homens e o homem todo”, segundo “o ideal cristão de uma única família dos povos, solidária na fraternidade comum”:
“O Evangelho é elemento fundamental do desenvolvimento, porque lá Cristo, com « a própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo » (Gaudium et Spes, 22). Instruída pelo seu Senhor, a Igreja perscruta os sinais dos tempos e interpreta-os, oferecendo ao mundo « o que possui como próprio: uma visão global do homem e da humanidade » (Populorum Progressio, 13)”.
A negação do caráter transcendente reduz o homem “à categoria de meio para o desenvolvimento”. Como argumento a favor da transcendência pode-se aduzir que “as causas do subdesenvolvimento não são primariamente de ordem material”. São elas:
“Em primeiro lugar, na vontade, que muitas vezes descuida os deveres da solidariedade. Em segundo, no pensamento, que nem sempre sabe orientar convenientemente o querer; por isso, para a prossecução do desenvolvimento, servem « pensadores capazes de reflexão profunda, em busca de um humanismo novo, que permita ao homem moderno o encontro de si mesmo »”.
Servem de instrumentos ou meios (não como fins em si mesmos) para o desenvolvimento integral e o progresso do homem estruturas econômicas e instituições, o lucro sustentável orientado ao bem comum, os poderes públicos, o mercado, a empresa, a técnica.
“Tudo quanto existe sobre a terra deve ser ordenado em função do homem, como seu centro e seu termo: neste ponto existe um acordo quase geral entre crentes e não crentes”.
CONCLUSÃO
“O homem não é capaz de gerir sozinho o próprio progresso” porque a verdade lhe é superior, é dom de Deus, assim como a caridade. A Igreja “tem uma missão ao serviço da verdade” que é irrenunciável. “A verdade une os espíritos entre si e fá-los pensar em uníssono”, de modo que é preciso que haja uma busca comum da verdade.
É inerente ao cristão o anúncio inequívoco da verdade que é Cristo. Anúncio este feito com a caridade que tem sua fonte em Deus.