domingo, 8 de junho de 2008

Marcha da Maconha: legalização ou barbárie

Comentário ao artigo "Marcha da Maconha: legalização ou barbárie", publicada em 02/05/2008 às 19h04m (http://oglobo.globo.com/opiniao/mat/2008/05/02/marcha_da_maconha_legalizacao_ou_barbarie-427176164.asp) de Renato Cinco.

A falência da política de proibição de drogas é evidente, mas a política inversa não será solução definitiva, como bem reconhece o autor. Dizer que a legalização da maconha “fará desaparecer a principal fonte de financiamento do crime de rua e uma das principais fontes de corrupção das autoridades” é no mínimo inocente ignorância. É desconhecer que a maior movimentação financeira vem de drogas mais pesadas e que a legalização do comércio de um produto não significa que desaparecerão os meios ilegais de adquiri-lo.
Por trás do desejo de descriminização está a defesa de uma prática já realizada, não o desejo de um debate público. E ainda: passeatas não são nem de longe a melhor forma de discutir uma questão, principalmente se for polêmica. A passeata só mostra um lado da questão. Os debates sérios já acontecem há algum tempo e nunca foram proibidos.
Se juridicamente a defesa da descriminização não significa apologia ao ato defendido (no caso, quem defende a legalização da maconha não está necessariamente incentivando seu uso), não é assim para o espectador de uma tal passeata. Para uma criança ou adolescente mais vale uma bela passeata do que um debate fechado em meio político ou acadêmico. O direito à livre expressão não dá direito a defender qualquer coisa e de qualquer jeito.

domingo, 1 de junho de 2008

O mito como interpretação da realidade

Resumo de: CROATTO. José Severino. O mito como interpretação da realidade. Considerações sobre a função da linguagem de estrutura mítica no Pentateuco. In: RIBLA, n. 23. Petrópolis: Vozes, 1996, p. 16-22.


O Pentateuco é para Israel o relato das tradições fundantes, das experiências que dão sentido às práticas sociais e religiosas. Ele ajuda na compreensão da própria história e identidade do povo enquanto narra um tempo originário que garante o tempo presente.
Para essa importante tarefa, o mito é o recurso que melhor se adapta. No mito se recolhe o histórico e real e se lhe dá um novo significado, imaginando uma origem instauradora, de preferência de uma autoridade superior, quase sempre a divindade.
O que é narrado no mito certamente nunca aconteceu. O que é fato é uma interpretação de uma realidade dada no presente; aquilo a que o mito se refere, não o relato em si. O histórico do mito é interpretativo, não descritivo.
No Pentateuco, as experiências de sucessos dos hebreus são narradas como mito. As tradições do agora do povo também devem ter sua origem numa instância superior e primordial. O mito é também gerador de modelos divinos:
· A situação de um povo em situação de exílio e de diáspora, que esperam um futuro, é narrada como acontecimento salvífico carregado de símbolos, de teofanias reveladoras e de promessas aos patriarcas.
· Uma situação de pecado é narrada como a transgressão de um primeiro casal.
· A vingança de sangue, como prática preventiva, é originada e instituída por Deus no mito de Caim.
· A fundação e o desaparecimento da Babilônia imperial do agora de Israel é narrado no mito de Babel.
· A circuncisão, o sábado, o culto e todas as leis são remetidas a uma instauração divina no grande mito do Sinai, um momento impreciso mas primordial, original. O sábado é colocado mesmo no contexto da criação de Deus, como modelo a ser seguido: os homens fazem o que Deus fez.
Por fim, o mito é interpretador da história. A sucessão de fatos é re-significada com vistas a uma finalidade presente ou uma esperança futura. É fator encorajador principalmente na história religiosa de um povo.