terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Ajuda à Igreja do Brasil: CF, mais uma vez, empobrecerá a Quaresma

Irmãos e irmãs na fé católica, 
 Queria tentar uma solução para o grande problema litúrgico causado pelas Campanhas da Fraternidade no Brasil: o empobrecimento do tempo quaresmal. Para isso, peço a ajuda dos leitores na discussão da questão, para, quem sabe, elaborarmos uma melhor proposta para a CNBB, guardando o devido respeito à sagrada hierarquia católica.
A quaresma de Jesus
Além da questão "temática" que se sobrepõe ao próprio tempo penitencial, também os cantos e os hinos vão contra os princípios litúrgicos. O edital para a composição do hino da CF 2013 diz:
"2.1 A expressão musical do hino consistirá de:
• Caráter vibrante, vigoroso, “energizador” e convocativo. Este caráter tem a ver com o ressoar de “trombetas e clarins” (cf. Sl 47, 6; 98, 5-6);
• Melodia e ritmo fluentes, acessíveis a qualquer tipo de assembléia;
• Força melódica e rítmica eficazes para a dinamização das potencialidades individuais e grupais."
enquanto a Instrução Geral do Missal Romano diz:
"No tempo da Quaresma só é permitido o toque do órgão e dos outros instrumentos musicais para sustentar o canto."
e o próprio Diretório da Liturgia, da CNBB, diz:
"Cantar a quaresma é, antes de tudo, cantar a dor que se sente pelo pecado do mundo, que, em todos os tempos e de tantas maneiras, crucifica os filhos de Deus e prolonga, assim, a Paixão de Cristo. É um canto de penitência e conversão, um canto sem "glória" e sem "aleluia", um canto sem flores e sem as vestes da alegria, [...]"
Sobre o Hino da CF, o mesmo Diretório diz que "pode ser entoado em algum momento da homilia", o que acho problemático, ou nos ritos finais. Neste último caso, concordo desde que seja um canto adequado ao espírito da Quaresma. Seria de se desejar uma orientação mais incisiva por parte dos Bispos, para coibir os abusos, como cantar o tal hino na entrada.
Enfim, gostaria - e penso que não estou sozinho - que voltássemos à sobriedade e riqueza litúrgica e catequética da quaresma.  Penso em enviar um bom relatório a: 
Dom Lenardo Ulrich Steiner
Secretário Geral da CNBB
 
Pe. Luiz Carlos Dias
Secretário Executivo da CF
 
Pe. José Carlos Sala
Assessor da CNBB para a Música Litúrgica

 musica@cnbb.org.br  
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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O canto sacro x o prazer dos sentidos

No livro de suas Confissões, Santo Agostinho expõe sua busca por Deus. Na parte em que fala dos prazeres dos sentidos, ele toca a questão do canto na Igreja, sobre como deve ser apreciado o canto unido à razão. Segue o capítulo, com grifos nossos:

 
Os prazeres do ouvido

  Os prazeres do ouvido me prendem e me subjugam com mais força, mas tu me desligaste, me libertaste. 
  Agradam-me ainda, eu o confesso, os cânticos que tuas palavras vivificam, quando executados por voz suave e artística; todavia eles não me prendem, e dele posso me desvencilhar quando quero. Para assentarem no meu íntimo, em companhia com os pensamentos que lhe dão vida, buscam em meu coração um lugar de dignidade, mas eu me esforço ou me ofereço para ceder-lhes só o lugar conveniente.
  Às vezes parece-me tributar-lhe mais atenção do que devia: sinto que tuas palavras santas, acompanhadas do canto, me inflamam de piedade mais devota e mais ardente do que se fossem cantadas de outro modo. Sinto que as emoções da alma encontram na voz e no canto, conforme suas peculiaridades, seu modo de expressão próprio, um misterioso estímulo de afinidade. 
  Mas o prazer dos sentidos, que não deveria seduzir o espírito, muitas vezes me engana. Os sentidos não se limitam a seguir, humildemente, a razão; o mesmo tendo sido admitidos graças à ela, buscam precedê-la e conduzi-la. É nisso que peco sem o sentir, embora depois o perceba. 
  Outras vezes, porém, querendo exageradamente evitar este engano, peco por excessiva severidade; chego ao ponto de querer afastar de meus ouvidos, e da própria Igreja, a melodia dos suaves cânticos que habitualmente acompanham os salmos de Davi. Nessas ocasiões parece-me que o mais seguro seria adotar o costume de Atanásio, bispo de Alexandria. Segundo me relataram, ele os mandava recitar com tão fraca inflexão de voz, que era mais uma declamação do que um canto. 
  Contudo, quando lembro das lágrimas que derramei ao ouvir os cantos de tua Igreja, nos primórdios de minha conversão, e que ainda agora me comovem, não tanto com o canto, mas com as letras cantadas, voz clara e modulações apropriadas, reconheço novamente a grande utilidade desse costume. 
  Assim, oscilo entre o perigo do prazer e a constatação dos efeitos salutares do canto. Por isso, sem emitir juízo definitivo, inclino-me a aprovar o costume de cantar na igreja, para que, pelo prazer do ouvido, a alma ainda muito fraca, se eleve aos sentimentos de piedade. E quando me comovem mais os cantos do que as palavras cantadas, confesso meu pecado e mereço penitencia, e então preferiria não ouvir cantar.  
  Eis em que estado me encontro! Chorai comigo, e chorai por mim, vós que alimentais no coração a virtude, fonte de boas obras. Porque vós, a quem isso não afeta, sois insensíveis a tudo isso. E tu, Senhor meu Deus, escuta, olha e vê; tem piedade de mim, cura-me. Eis que me tornei um problema para mim mesmo, sob teu olhar, e aí está precisamente meu mal. 
 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

EDUCAR OS JOVENS PARA A JUSTIÇA E A PAZ

Divulgado o texto da Mensagem de Bento XVI para o Dia Mundial da Paz 2012, que se celebra em 1º de janeiro. A íntegra da Mensagem aqui.

A Mensagem convida a um olhar de esperança para o futuro, "olhar o mundo na sua verdade sem se deixar abater pelas tribulações", conforme a esperança do povo que espera seu Senhor.

O Papa reconhece a particularidade da expectativa dos jovens, que podem, de fato, oferecer uma valiosa contribuição à sociedade. Para isso, é necessário que sejam educados para a justiça e a paz.

A educação é um processo que se alimenta do encontro de duas liberdades: a do adulto e a do jovem. Requer responsabilidade e disponibilidade, além do testemunho daquele que ensina.

Os educadores são, em primeiro lugar, os pais e a família. É um valor a se resgatar o respeito e a "solidariedade entre as gerações, o respeito pelas regras, o perdão e o acolhimento do outro".

Também é grande o papel das instituições com tarefas educativas: devem valorizar e respeitar a dignidade humana de cada pessoa, e cuidar para não contrastar com as consciências e os princípios religiosos. A responsabilidade do próprio jovem é grande, cabendo-lhe fazer bom uso da liberdade.

A formação integral da pessoa exige que não se descuide da dimensão moral e espiritual. Educar para a verdade é colocar a questão sobre o fim último, sobre quem é a pessoa humana e qual sua natureza. Deve-se redescobrir o homem como ser com sede do infinito, sede de verdade que dê sentido à vida.

A liberdade autêntica "não é a ausência de vínculos, nem o império do livre arbítrio; não é o absolutismo do eu." O homem é um ser de relação; precisa dos outros, sobretudo de Deus, autor de tudo e a Verdade última. O relativismo reinantena sociedade deve ser combatido para ser possível a educação. Sem a verdade, a pessoa poderá duvidar até da bondade da própria vida e das suas relações, tornando impossível a justiça e a paz.

Para exercer a liberdade, deve-se conhecer o bem e o mal, e a si próprio. A lei moral natural, uma lei que está no íntimo da consciência, tem caráter universal e exprime a dignidade de cada pessoa, com seus direitos e deveres fundamentais.

"É importante não separar das suas raízes transcendentes o conceito de justiça", para sobrebor a tendência de se recorrer aos critérios de utilidade. A justiça, então, não é uma convenção humana, mas origina-se na própria identidade do ser humano.

A paz, que em última análise vem de Deus, não é apenas dom a ser recebido, mas obra a ser construída. "A paz para todos nasce da justiça de cada um, e ninguém pode subtrair-se a este compromisso essencial de promover a justiça segundo as respectivas competências e responsabilidades", sendo o ponto central o responsável uso da liberdade.

Aos jovens, o Papa pede: "Não tenhais medo de vos empenhar, de enfrentar a fadiga e o sacrifício, de optar por caminhos que requerem fidelidade e constância, humildade e dedicação." Que os jovens sejam exemplos para os adultos de como viver intensamente os anseios de felicidade, verdade, beleza e amor verdadeiro. Neste caminho não estão sozinhos: "A Igreja confia em vós, acompanha-vos, encoraja-vos e deseja oferecer-vos o que tem de mais precioso: a possibilidade de levantar os olhos para Deus, de encontrar Jesus Cristo – Ele que é a justiça e a paz."

Tudo é relativo e cada um tem a “sua” verdade?

Todo discurso, sobre qualquer assunto, desmorona se não tem por base o problema da verdade. A possibilidade da verdade é a possibilidade de se afirmar ou negar qualquer coisa. 

Quem diz: “A verdade é relativa”, está se contradizendo, porque está fazendo uma afirmação. Qualquer afirmação só se sustenta se ela for verdadeira. 

O problema da verdade é de elevada importância principalmente para os jovens. Quando crianças, são totalmente dependentes da tradição, isto é, de tudo que lhes chega através de seus pais, formadores, do ambiente. Não têm capacidade intelectual para duvidar ou criticar o que não for absurdo absoluto. Quando já têm a possibilidade e um pouco de capacidade intelectual, já podem emitir alguns juízos, alguns falsos, outros verdadeiros. Certo é que a sede pela verdade acompanha quem tem vontade de viver, isto é, a princípio, todos os seres humanos. 

Na fase de transição entre a infância e a idade adulta (idade intelectual, mais que física, apesar da dependência do intelecto das estruturas físicas), o jovem percebe que muitas das suas crenças se mostraram falsas. É levado às vezes, por desejo de verdade, a combater os antigos erros. 

Acontece que nessa fase de “rebeldia” ou “revolução” intelectual, o jovem pode descartar, junto com as mentiras, algumas verdades, e em certos casos, a própria possibilidade da verdade. Neste último caso, temos um quadro de “relativismo”, que pode levar até a uma “depressão intelectual”, causada pela perda do sentido da própria existência, já que a existência é uma verdade. O relativismo é particularmente a doença da época contemporânea. 

Não nos cabe aqui discorrer sobre os diversos tipos de relativismo, sua gênese e desenvolvimento. Mas é preciso dizer, como já insinuamos, que a verdade existe e é possível e necessário conhecê-la. 

A verdade é a adequação de nossa mente às coisas. A existência da verdade como algo objetivo e universal, invariável e superior a qualquer opinião é uma certeza do senso comum necessária. Se é verdade que a verdade não existe, como querem os relativistas, então existe a verdade. Se, também, se admite que existem várias verdades, mesmo que umas contradigam as outras, isso nada mais é que falsidade, mera opinião, obstinação no erro. 

Só a partir do princípio fundamental e inegável da possibilidade da verdade é que poderemos obter a paz de espírito, tão desejada por todos. A instabilidade gerada pela negação da verdade é a razão para a negação do próprio homem, da moralidade, da bondade, da beleza, do bem. A busca pela verdade total é a própria felicidade, um caminho a percorrer, não um objetivo distante a que posso descuidar. 

Admitida a possibilidade da verdade, abre-se portas para a descoberta das "outras verdades" negadas ou roubadas, a saber, sobre Deus, sobre a existência, sobre o homem, sobre a religião, sobre a natureza, sobre a vida humana e a história.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A Igreja e a pena de morte

Geralmente este debate se origina de uma posição falsa. A Igreja NÃO é a favor da pena de morte, como querem alguns, nem absolutamente CONTRA como querem outros. Com isso não quero dizer que a Igreja está em cima do muro. Não, a sua posição é clara, e bastante conhecida, como repetirei mais abaixo. A Igreja existe para salvar almas, o que a leva a agir na sociedade, aplicando seu juízo moral, segundo o direito natural e a doutrina revelada.

Matar sempre é um mal moral. Mas pode ser considerado mal menor em diversos casos. Por isso, está aberta a possibilidade de se admitir "em caso de extrema gravidade, a pena de morte". Observe então que "caso de extrema gravidade", "depois de esgotados todos os meios", são casos extraordinários que não podem ser regulados por nenhuma instância. Isto é, a sociedade não pode querer a pena de morte. Mas pode admitir que ocorra em certos casos não previstos, em caráter de urgência. A regulamentação ou defesa da pena de morte faz com que ela passe de extraordinária a ordinária, premeditada, prevista, querida.

Por isso o Catecismo, os Santos Doutores e os Papas deixam aberta a possibilidade de tal pena; porque sabem que se não houver outro recurso, é o último a ser usado. Na sociedade atual, não se pode prever um caso em que seria justo condenar alguém à morte. Por exemplo, um caso recente, Sadam Hussein. O criminoso já estava preso, por si não poderia fugir e ninguém mais estaria disposto a lutar por ou com ele. A Igreja foi pronunciou-se (através da Sala de Imprensa, que não fala em nome do Magistério, mas do Papa) contra a execução (e não houve retratação deste pronunciamento, como era de se esperar, se estivesse equivocado). Outros casos, como Bin Laden e Gaddafi, aparentemente mortos durante operação de captura, a Igreja não se pronunciou contra a morte dos mesmos, a não ser pela utilização das imagens como espetáculo de morte, vingança e violência.

Na perspectiva dos Santos, vale lembrar que mais vale a vida eterna que a vida mortal. E que o pecador pode, por meios só conhecidos e oferecidos pela Divina Misericórdia, se salvar mesmo no seu último instante, sendo-lhe oferecida a oportunidade de purificação póstuma. Matar um corpo não mata a alma.

Por isso, não é o pior dos males. Neste debate, vê-se que a emotividade ou os interesses políticos substituem a verdadeira consciência. A questão está muito facilmente fechada pelo Magistério da Igreja, e não cabe ao fiel cristão fazer militância pró ou contra.

Para terminar deixo as palavras do Magistério, que não necessitam muito esforço de interpretação:

Catecismo da Igreja Católica: "2263. A defesa legítima das pessoas e das sociedades não é uma excepção à proibição de matar o inocente que constitui o homicídio voluntário. «Do acto de defesa pode seguir-se um duplo efeito: um, a conservação da própria vida; outro, a morte do agressor» (39). «Nada impede que um acto possa ter dois efeitos, dos quais só um esteja na intenção, estando o outro para além da intenção» (40).

2264. O amor para consigo mesmo permanece um princípio fundamental de moralidade. E, portanto, legítimo fazer respeitar o seu próprio direito à vida. Quem defende a sua vida não é réu de homicídio, mesmo que se veja constrangido a desferir sobre o agressor um golpe mortal: «Se, para nos defendermos, usarmos duma violência maior do que a necessária, isso será ilícito. Mas se repelirmos a violência com moderação, isso será lícito [...]. E não é necessário à salvação que se deixe de praticar tal acto de defesa moderada para evitar a morte do outro: porque se está mais obrigado a velar pela própria vida do que pela alheia» (41).

2265. A legítima defesa pode ser não somente um direito, mas até um grave dever para aquele que é responsável pela vida de outrem. Defender o bem comum implica colocar o agressor injusto na impossibilidade de fazer mal. É por esta razão que os detentores legítimos da autoridade têm o direito de recorrer mesmo às armas para repelir os agressores da comunidade civil confiada à sua responsabilidade.

2266. O esforço do Estado em reprimir a difusão de comportamentos que lesam os direitos humanos e as regras fundamentais da convivência civil, corresponde a uma exigência de preservar o bem comum. É direito e dever da autoridade pública legítima infligir penas proporcionadas à gravidade do delito. A pena tem como primeiro objectivo reparar a desordem introduzida pela culpa. Quando esta pena é voluntariamente aceite pelo culpado, adquire valor de expiação. A pena tem ainda como objectivo, para além da defesa da ordem pública e da protecção da segurança das pessoas, uma finalidade medicinal, posto que deve, na medida do possível, contribuir para a emenda do culpado.

2267. A doutrina tradicional da Igreja, desde que não haja a mínima dúvida acerca da identidade e da responsabilidade do culpado, não exclui o recurso à pena de morte, se for esta a única solução possível para defender eficazmente vidas humanas de um injusto agressor. Contudo, se processos não sangrentos bastarem para defender e proteger do agressor a segurança das pessoas, a autoridade deve servir-se somente desses processos, porquanto correspondem melhor às condições concretas do bem comum e são mais consentâneos com a dignidade da pessoa humana. Na verdade, nos nossos dias, devido às possibilidades de que dispõem os Estados para reprimir eficazmente o crime, tornando inofensivo quem o comete, sem com isso lhe retirar definitivamente a possibilidade de se redimir, os casos em que se torna absolutamente necessário suprimir o réu «são já muito raros, se não mesmo praticamente inexistentes» (42)."