sábado, 10 de janeiro de 2009

Uma posição heterodoxa sobre as virtudes teologais e o Reino de Deus

COMBLIN, José. O caminho. Ensaio sobre o seguimento de Jesus. 2ª. Ed. São Paulo: Paulus, 2005. 227pp.


O autor pretende tratar do que é ser cristão. Baseia sua exposição nas três virtudes teologais, as quais dedica cada um dos três capítulos do livro respectivamente à esperança, à fé e ao amor.

Já no prólogo propõe a distinção que norteia todo seu livro: o caminho de Jesus é diferente de religião (p. 8). Esta, tendo em vista claramente e primeiramente a Igreja Católica, é empecilho para seguimento de Jesus.

O primeiro capítulo é sobre a esperança, por ser a virtude que norteia nossa época (p. 13). Após expor longamente sobre como não foi vivida a esperança em outras épocas, chega à conclusão que o atual conceito de progresso traz em si uma esperança (p. 18), não mais escatológica, mas para esse mundo (p. 20-23). Essa esperança aspira a uma nova forma de convivência humana, isto é, o Reino de Deus, uma “mudança total da sociedade” (p. 33).

O autor afirma que “a única tarefa que justifica a existência da igreja” é “refazer toda a educação do povo” (p. 45) colocando-a ao lado das outras organizações. “O lugar dos cristãos é no meio deste mundo, fazendo parte dos movimentos de libertação dos oprimidos”, afirma o autor, elencando e justificando alguns movimentos de revolta como “portadores de esperança” (p. 46).

No subtítulo “Esperança e realidade histórica” critica a Igreja Católica por suas “proposições universais”, “cristianismo invariável”, alegando ser o cristianismo um momento na história (p. 53). Diz que a história de Israel é a história de uma esperança, de uma promessa. Quando começaram a perder a esperança para este mundo, “começou a aparecer a idéia de ressurreição” (p. 56). No mesmo subtítulo cai em contradição ao afirmar que “enquanto estamos a caminho – não podemos esperar uma realização plena do Reino de Deus [...] O Reino de Deus nunca será uma estrutura instalada de modo definitivo na história” (p. 61).

No capítulo sobre a Fé, o autor dedica uma longa introdução a demonstrar que fé foi confundida com ortodoxia. No segundo subtítulo define a fé como “resposta ao anúncio da boa-nova” (p. 93). “A fé cristã situa-se nessa fé em si mesmo, na própria capacidade e na busca da liberdade e da vida” (p. 95). A fé em Jesus é seguir o seu caminho (p. 118) e encontrá-lo no pobre (p. 121), não no culto. “Crer no Espírito Santo é crer nessa força e na capacidade de lutar por um mundo diferente”, é crer em si mesmo (p. 122) em oposição à instituição Santa Sé, da qual, segundo o autor, somos obrigados “a relativizar muito o valor dos textos publicados” (p. 123).

Na introdução sobre o capítulo do Amor, o autor apresenta os aspectos da questão do amor a serem tratados nos dias atuais: o reconhecimento do outro e a compaixão que gera ação.

O amor é a experiência humana concreta do conhecimento de Deus (p. 141) e tem por objeto pessoas humanas (p. 142). O objeto próprio do amor é o pobre (p. 148). As opções para amar os pobres são a inculturação (p. 155) ou a sua inserção no mundo global (p. 156).

O livro, em suma, é em sua maior parte narração de erros do passado. Quer comover por sua linguagem fácil, mas não apresenta novidade significativa na compreensão das virtudes. Estas não são apresentadas pelo autor como teologais, mas são o esforço do homem a construir uma nova sociedade neste mundo.

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